Por: Fred Soares - Especial para o Correio da Manhã

Carnaval 2026 | Imperatriz Leopoldinense: Meio homem, meio bicho, tem Ney na avenida

A figura imponente de Ney Matogrosso desde o tempo dos Secos & Molhados emerge no desfile da Imperatriz | Foto: Eduardo Hollanda/Flickr Rio Carnaval

A Imperatriz Leopoldinense volta à Marquês de Sapucaí em 2026 com um desfile que mistura ousadia, música e identidade cultural. Tradicional escola do bairro de Ramos, fundada em 1959, a agremiação entra na avenida neste domingo de carnaval como a segunda escola do Grupo Especial, levando para o público o enredo "Camaleônico", uma homenagem à trajetória artística e à performance singular de Ney Matogrosso, um dos ícones mais audaciosos da música popular brasileira.

Depois de conquistar a terceira colocação no último Carnaval, com "Ómi Tútu ao Olúfon - Água fresca para o senhor de Ifón", a Imperatriz chega a este ano com expectativas renovadas e a missão clara de buscar o décimo título de sua história na elite do samba carioca.

O responsável por traduzir o enredo em forma, cores e alegorias é o carnavalesco Leandro Vieira, que segue à frente do projeto pelo quarto ano consecutivo. Para ele, a escolha de Ney Matogrosso vai além da biografia musical e dialoga com a própria essência do carnaval. "Esse enredo é um convite para olhar o Brasil com os olhos de quem não teme mudar, reinventar e ser plural. Ney sempre transitou entre linguagens, gêneros e sensações, e é essa liberdade que queremos colocar na avenida", afirma o carnavalesco.

A definição do samba-enredo foi marcada por um processo intenso na quadra e terminou, novamente, em uma decisão pouco comum, mas já conhecida pela escola. Pela segunda

vez em tempos recentes, a Imperatriz optou por uma fusão de sambas concorrentes para chegar à obra final que será cantada na avenida. A última experiência semelhante havia ocorrido no Carnaval de 2024, quando a escola levou para a Sapucaí o enredo "Com a sorte virada pra lua, segundo o testamento da cigana Esmeralda".

A presidente da escola, Cátia Drumond, destacou o envolvimento coletivo e a maturidade da decisão. "Foi um processo muito bonito e muito responsável. A gente entendeu que duas obras se complementavam e que a fusão entregaria um samba mais forte, mais conectado com o enredo e com a comunidade", explica a dirigente.

Segundo ela, a escolha reflete um modelo de construção artística que prioriza o conjunto do desfile. "A Imperatriz tem buscado soluções que fortaleçam o todo. O samba precisa servir ao enredo e à escola."

A bateria Swing da Leopoldina, comandada pelo mestre Lolo, segue como um dos pilares da escola e promete uma apresentação de grande impacto rítmico. No carro de som, o intérprete Pitty de Menezes segue à frente da função, dando continuidade ao trabalho desenvolvido nas últimas temporadas, com potência vocal, clareza na condução do samba e forte comunicação com os componentes.

No quesito mais técnico da avenida, a Imperatriz mantém o casal de mestre-sala e porta-bandeira formado por Phelipe Lemos e Rafaela Theodoro. Reconhecida pela precisão, elegância e sintonia, a dupla terá a missão de defender o pavilhão verde, branco e ouro em um desfile que exige leitura clara do enredo e forte presença cênica.

A comissão de frente, assinada pelo coreógrafo Patrick Carvalho, aposta em movimentos que dialogam com a ideia de transformação constante, explorando a fluidez e a versatilidade como conceitos centrais da apresentação inicial da escola.

Durante a preparação para o desfile, o barracão da Imperatriz recebeu visitas importantes, entre elas a do próprio Ney Matogrosso, que acompanhou parte do desenvolvimento das alegorias e fantasias. A presença do homenageado reforçou o caráter simbólico e afetivo do projeto junto à comunidade.

Para Cátia Drumond, o foco da escola é transformar toda a preparação em um desfile consistente. "A Imperatriz tem uma história muito forte e uma comunidade que sabe o que é carnaval. Cada detalhe foi pensado com responsabilidade e amor pela escola, para que a gente possa fazer um grande desfile", afirma a presidente.

Com um enredo que celebra a liberdade artística, a diversidade e a potência da música brasileira, a Imperatriz Leopoldinense entra na Sapucaí neste domingo de carnaval reafirmando seu legado e sua ambição competitiva, apostando em um espetáculo de emoção, estética e identidade.

 

Ficha Técnica

Imperatriz Leopoldinense | Foto: Divulgação

Fundação

06/03/1959

Cores

Verde, Branco e Ouro

Presidente de Honra (in memorian)

Luiz Pacheco Drumond

Presidente

Cátia Drumond

Carnavalesco

Leandro Vieira

Diretores de Carnaval

André Bonatte

Intérprete

Pitty de Menezes

Mestre de Bateria

Lolo

Rainha de Bateria

Iza

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Phelipe Lemos e Rafaela Theodoro

Comissão de Frente

Patrick Carvalho

 

Samba-Enredo: Camalêonico


Autores: Gabriel Coelho, Alexandre Moreira,Guilherme Macedo, Chicão, Antônio Crescente, Bernardo Nobre, Hélio Porto, Aldir Senna, Orlando Ambrosio, Miguel Dibo, Marcelo Vianna e Wilson Mineiro

Intérprete: Pitty de Menezes


Sou meio homem, meio bicho

o silêncio e o grito

pássaro, mulher

que pinta a verdade no rosto

traz a coragem no corpo

e nunca esconde o que é

pelo visível, indefinível

ressignifica o frágil

o que confunde é o desbunde

do que desafia o fácil

canto com alma de mulher

arte que sabe o que quer

e não se esqueça

eu sou o poema que afronta o sistema

a língua no ouvido de quem censurar

livre para ser inteiro

pois, sou homem com h

e como sou…

o bicho, bandido, pecado e feitiço

pavão de mistérios, rebelde, catiço

a voz que à cálida rosa deu nome

a força de athenas que o mal não consome

o sangue latino que vira

vira, vira lobisomem

eu juro que é melhor se entregar

ao jeito felino provocador

devoro pra ser devorado

não vejo pecado ao sul do equador

se joga na festa, esquece o amanhã

minha escola na rua pra ser campeã!

Vem meu amor

vamos viver a vida

bota pra ferver

que o dia vai nascer feliz na leopoldina