Por: Fred Soares - Especial para o Correio da Manhã

Carnaval 2026 | Acadêmicos de Niterói: A trajetória de um retirante

O enredo da novata Acadêmicos de Niterói aposta em símbolos e imagens que tratam da resistência do povo nordestino | Foto: Eduardo Hollanda/Rio Carnaval


A Acadêmicos de Niterói vive um momento histórico neste Carnaval de 2026. Fundada em 2018, a escola conquistou em 2025 o título da Série Ouro e, com ele, o direito de desfilar pela primeira vez entre as grandes do samba carioca. A vitória veio com o enredo "Vixe Maria", uma celebração das festas juninas que arrebatou público e jurados e consolidou a jovem agremiação como uma força emergente do carnaval.

No domingo de Carnaval, a azul e branca da cidade-sorriso entra na Marquês de Sapucaí carregando um projeto ambicioso. O enredo "Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil" aposta numa narrativa biográfica e simbólica da trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva, partindo da infância no agreste nordestino até sua projeção nacional como líder sindical e político.

À frente da concepção artística está o carnavalesco Tiago Martins, mantido no cargo após o título no acesso. Para ele, a escolha do tema dialoga diretamente com a essência do carnaval. "A gente não quis fazer um desfile meramente cronológico. A ideia foi trabalhar símbolos, sentimentos e imagens que ajudassem o público a entender uma trajetória de superação que é coletiva, não apenas individual", explica o carnavalesco.

Segundo Tiago, o mulungu surge como metáfora de resistência, abrigo e esperança, conectando o Brasil profundo ao espetáculo da avenida. "É um enredo que fala de origem, de deslocamento e de luta. O carnaval tem essa potência de contar histórias complexas de forma sensível, acessível e emocionante."

O samba-enredo, lançado com festa na quadra ainda em setembro, reúne um time de peso na composição, com nomes como Teresa Cristina, André Diniz, Paulo César Feital, Fred Camacho, Junior Fionda, Arlindinho, Lequinho, Thiago Oliveira e Tem-tem Jr. O canto forte e narrativo se tornou um dos pontos de sustentação dos ensaios e da preparação da escola ao longo da temporada.

Para defender o samba na avenida, a Acadêmicos de Niterói apostou na contratação do intérprete Emerson Dias, que assume o carro de som neste Carnaval. A bateria Cadência de Niterói, agora comandada pelo mestre Branco Ribeiro, mantém a base rítmica que marcou a campanha vitoriosa no acesso, prometendo impacto já nas primeiras bossas.

Outro destaque importante da estreia no Grupo Especial é o novo primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, formado por Emanuel Lima e Thainara Matias. A dupla chega com a missão de defender o pavilhão azul e branco em seu primeiro desfile na elite, unindo técnica, leveza e identidade com o projeto da escola.

A comissão de frente também foi reformulada para este ano, com a chegada dos coreógrafos Handerson Big e Marlon Cruz, que apostam numa encenação clara e comunicativa para apresentar o enredo logo no início do desfile, conectando o público à narrativa antes mesmo do primeiro carro alegórico.

À frente da escola, o presidente Wallace Palhares faz questão de destacar o caráter coletivo desse momento histórico. "Nada disso faria sentido se a escola não estivesse com a comunidade dentro da avenida. A prioridade sempre foi garantir que quem construiu essa história estivesse presente nesse desfile", afirma. Segundo ele, o acesso ao Grupo Especial exigiu organização, planejamento e responsabilidade. "A gente sabe o tamanho do desafio, mas a Acadêmicos de Niterói não chega aqui para passear. Chega com os pés no chão, com trabalho e com respeito à sua própria trajetória."

Com alas majoritariamente formadas por integrantes da cidade e forte adesão popular desde o anúncio do enredo, a escola transforma sua estreia na Sapucaí em um ato de afirmação. Mais do que um desfile, a Acadêmicos de Niterói apresenta um projeto que mistura identidade local, narrativa nacional e ambição artística - uma estreia que carrega o peso da história e o frescor de quem ainda está escrevendo a sua.

 

Ficha Técnica

Acadêmicos de Niterói | Foto: Divulgação

Fundação

26/03/2018

Cores

Azul e Branco

Presidente

Wallace Palhares

Carnavalesco

Tiago Martins

Diretores de Carnaval

Hamilton Junior e Ricardo Simpatia

Intérprete

Emerson Dias

Mestre de Bateria

Branco Ribeiro

Rainha de Bateria

Vanessa Rangeli

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Emanuel Lima e Tainara Mathias

Comissão de Frente

Marlon Cruz e Handerson Big

 

Samba-Enredo: Do alto do mulungu surge a esperança: lula, o operário do brasil


Autores: Teresa Cristina, André Diniz, Paulo Cesar Feital, Fred Camacho, Junior Fionda, Arlindinho, Lequinho, Thiago Oliveira e Tem-Tem Jr

Intérprete: Emerson Dias

 

Eu vi brilhar a estrela de um país

no choro de Luiz, à luz de Garanhuns

lugar onde a pobreza e o pranto

se dividem para tantos

e a riqueza mulitiplica para alguns

me via nos olhares dos meus filhos

assombrados e vazios com o peito em pedaços

parti atrás do amor e dos meus sonhos

peguei os meus meninos pelos braços

brilhou um sol da pátria incessante

pro destino retirante te levei Luiz Inácio

por ironia, treze noites, treze dias

me guiou Santa Luzia, São José alumiou

da esquerda de Deus pai, da luta sindical

à liderança mundial

Vi a esperança crescer e o povo seguir sua voz

revolucionário é saber escolher os seus heróis

Zuzu Angel, Henfil, Vladimir

que pagaram o preço da raiva

Nós ainda estamos aqui no brasil de Rubens Paiva

lute pra vencer, aceite se perder

se o ideal valer, nunca desista

não é digno fugir, nem tão pouco permitir

leiloarem isso aqui a prazo, à vista

é... Tem filho de pobre virando doutor

comida na mesa do trabalhador

a fome tem pressa, Betinho dizia

é.. Teu legado é espelho das minhas lições

sem temer tarifas e sanções

assim que se firma a soberania

sem mitos falsos, sem anistia

Quanto custa a fome? Quanto importa a vida?

Nosso sobrenome é Brasil da Silva

vale uma nação, vale um grande enredo

em Niterói o amor venceu o medo

Olê, olê, olê, olá

Vai passar nessa avenida mais um samba popular

Olê, olê, olê, olá, Lula! Lula!