Carnavalesco revela como a escola levará à Sapucaí uma narrativa espiritual, histórica e humana
A Paraíso do Tuiuti entra na reta final de preparação para o Carnaval de 2026 apostando em mais um enredo de forte densidade simbólica. Em entrevista ao Correio da Manhã, o carnavalesco Jack Vasconcelos explicou os caminhos de "Lonã Ifá Lucumí", tema que conduz o desfile da escola de São Cristóvão e acompanha o destino do Ifá ao longo da história da humanidade, da criação do mundo à sua expansão pelas Américas.
Lonã significa destino, conceito que organiza toda a narrativa. Orúmila, orixá responsável pela comunicação entre os orixás e os humanos por meio do jogo do Ifá, é o eixo central do desfile. "Ele é o senhor do destino. Ele conhece o nosso passado, o nosso presente e o nosso futuro. Ele é o testemunho da criação de tudo e de todos", afirma Jack.
A abertura do desfile apresenta a criação do universo, da natureza e dos homens a partir da cosmovisão iorubá, estabelecendo o papel do Ifá como orientador da humanidade. A partir daí, a Tuiuti constrói uma caminhada espiritual e histórica que conecta fé, tradição e reflexão sobre o presente.
No primeiro setor, o desfile se concentra em Ifé, considerada pela cultura iorubá a primeira cidade da humanidade. É ali que Orúmila transmite o conhecimento do Ifá aos primeiros babalaôs, responsáveis por levar essa sabedoria ao mundo. "Eles recebem a missão de espalhar o Ifá pela humanidade", explicou o carnavalesco.
O enredo acompanha a expansão desse conhecimento por diferentes civilizações, seguindo antigas rotas africanas. O Ifá chega a regiões como Cuxe, Kemet, o atual Egito, e até a Mesopotâmia, influenciando populações e líderes como um sistema de orientação espiritual e social.
O desfile avança para a diáspora africana e a chegada do Ifá às Américas, com foco no Lucumí, tradição desenvolvida em Cuba. Jack explica que o recorte também dialoga com a chegada de um babalaô cubano ao Rio no fim dos anos 1990. "Esse Ifá Lucumí encontra aqui um solo fértil, floresce para o Brasil inteiro e agora para o mundo também", disse.
A narrativa aborda o tráfico de africanos escravizados e o encontro entre os orixás e as ancestralidades já existentes no Caribe. Segundo o carnavalesco, trata-se de uma fusão espiritual profunda, que permitiu ao Ifá se reinventar e florescer em novas terras.
A grandiosidade estética acompanha o conceito. O abre-alas será um dos maiores já levados pela escola à Sapucaí, com cerca de 60 metros de comprimento. "A gente está indo com tudo", resumiu Jack. No encerramento, o desfile assume tom mais reflexivo. "A missão da Tuiuti é mostrar que todos estamos interligados. Todas as ações geram consequências, físicas e espirituais", afirmou.
A força feminina que impulsiona a Tuiuti
O Carnaval atual da Paraíso do Tuiuti também passa, necessariamente, pelo protagonismo de Mayara Lima. Rainha de bateria, ela se consolidou como um dos principais símbolos da escola, ampliando a visibilidade da agremiação dentro e fora da Avenida.
Em entrevista exclusiva, Mayara destacou o peso simbólico do cargo. "É uma grande responsabilidade. Para além do cargo, é sobre representar e dar continuidade a um legado de outras mulheres. Eu carrego o sonho de muitas crianças e essa é uma das minhas missões: trazer brilho pro olhar das meninas de comunidade e orgulho pra toda a comunidade do samba", afirmou.
A conexão com o enredo de 2026 também se reflete na preparação artística. "Nosso enredo fala sobre o Ifá e comecei a estudar imediatamente sobre a religião", contou. A adaptação da dança acompanha a proposta musical da bateria, que mistura samba com ritmos cubanos. "Teremos referências a salsa, merengue e ao batuque afro-cubano. Pensei em uma outra forma de representar esse enredo também na minha dança", explicou.
Um dos vídeos de Mayara dançando ao som dos atabaques ultrapassou 13 milhões de visualizações, ampliando o alcance da escola no pré-Carnaval. "Esse vídeo mostra toda a ancestralidade da Paraíso do Tuiuti", destaca.