Por: Rafael Lima

Da lama à avenida: Grande Rio mergulha no manguezal em enredo que celebra o manguebeat

Grande Rio será a terceira escola a desfilar na terça-feira de Carnaval | Foto: Alexandre Loureiro | Riotur

Em entrevista ao Correio da Manhã, carnavalesco dá detalhes de como vem a tricolor de Caxias

Pernambuco está em alta. Além das indicações do longa "O Agente Secreto" ao Oscar, a cultura do estado é celebrada no carnaval carioca, e não é pelas mãos do frevo. A Acadêmicos do Grande Rio leva à Marquês de Sapucaí um carnaval entranhado na lama dos bairros periféricos do Recife ao celebrar o movimento do manguebeat, uma revolução artístico-musical-estética que ganhou o mundo pelas mãos de Chico Science e Nação Zumbi.

Assinado pelo carnavalesco Antônio Gonzaga, o desfile parte das raízes para chegar à explosão urbana que consagrou o manguebeat. Antes do encontro entre maracatu, rock, hip-hop e influências estrangeiras, a escola percorre os mangues, a vida nas margens e o cotidiano dos catadores de caranguejo, além da força da ancestralidade que rege esse território. "A gente entende o manguebeat como essa explosão de música urbana que mistura maracatu com hip-hop e rock, mas antes disso existe toda uma raiz cultural que precisa ser apresentada", explica o carnavalesco. Segundo ele, a presença simbólica de Nanã, divindade ligada à lama e à criação, surge como elemento condutor desta narrativa.

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Gonzaga conta detalhes de como se aprofundou no tema para levá-lo para a avenida | Foto: Ewerton Pereira

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Detalhe de carro da escola, que celebra a potência artístico-estética evocada pelo manguezal explicada pelo carnavalesco Antônio Gonzada | Foto: Rafael Arantes

O enredo se estrutura em diferentes momentos, refletindo a diversidade estética que marca a própria essência do manguebeat. A proposta visual acompanha essa transformação. Há setores de linguagem mais rústica, com aparência quase artesanal, que remetem à terra, à lama e ao trabalho manual. Em outros momentos, o desfile assume a estética clássica do carnaval, com brilho, pedrarias e paetês. Já na chegada à urbanidade, entram em cena referências contemporâneas como grafite, transparências e materiais que dialogam com a cultura das periferias e com a arte das ruas.

Essa diversidade visual, segundo Antônio Gonzaga, é uma exigência do próprio enredo. "Cada momento do desfile tem uma linguagem estética diferente, porque a narrativa muda. A gente passa pelo rústico, pelo tradicional do carnaval e chega numa estética mais urbana", afirma. Ele destaca ainda a força da abertura e do quarto setor como pontos-chave da apresentação. "O meu compromisso é que a visualidade transporte o componente e o público para dentro do universo do manguebeat. A ideia é mergulhar mesmo nesse manguezal."

A voz que conduz a travessia

Na avenida, essa travessia ganha voz em um nome que se tornou símbolo recente dos sambas da Grande Rio. Evandro Malandro, intérprete oficial da escola, carrega no timbre potente e marcante a responsabilidade de conduzir o enredo diante do público da Sapucaí. Sua trajetória chama atenção por ter começado fora do universo do samba. "Eu vim da música clássica, não era do samba. Minha história com a Grande Rio começou entre 2008 e 2009, quando defendi um samba da escola", relembra.

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Evandro Malandro, intérprete da Grande Rio | Foto: Divulgação

Natural de Nova Friburgo, Evandro passou a integrar o carro de som da agremiação em 2014, permanecendo até 2018. O reconhecimento veio também pelo trabalho desenvolvido no Acadêmicos do Cubango, onde conquistou prêmios importantes. "Graças a Deus, fiz um bom trabalho com o meu time, e isso abriu portas", diz. A virada de chave aconteceu em 2020, quando conquistou o Estandarte de Ouro e viu seu nome ganhar projeção nacional. "Sempre busquei excelência no trabalho. Os holofotes vieram pelo desempenho e pela entrega", afirma.

Orgulho pernambucano

Figura histórica da Grande Rio e presença constante no Carnaval carioca, David Brazil também se vê diretamente representado pelo enredo de 2026. Pernambucano, nascido em Casa Amarela, ele celebrou a escolha do tema como uma homenagem à cultura de seu estado natal e à sua trajetória dentro da escola. "As minhas expectativas são as melhores possíveis, com um enredo maravilhoso que é o movimento cultural do meu Pernambuco. Para quem não sabe, eu sou pernambucano e são quase 30 anos de Grande Rio", conta, com orgulho.

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David ao lado da Rainha de Bateria, Virgínia Fonseca, e da Rainha de Honra da escola, Paolla Oliveira | Foto: Rafael Arantes

Com carinho pela comunidade de Duque de Caxias, David destacou a relação afetiva com a escola e comentou os desafios recentes com a chegada de Virgínia Fonseca como rainha de bateria. "Foi uma turbulência, uma tempestade, mas graças a Deus passou. Hoje está tudo calmo, tudo maravilhoso", disse, ao elogiar o momento atual da escola. Ele também exaltou segmentos como a bateria e o casal de mestre-sala e porta-bandeira. "Que venha o carnaval e, quem sabe, o campeonato. Quem ama o carnaval sabe o amor que se tem pelo pavilhão", torce.