Além de um enredo que brota do berço do samba, uma geração de mulheres gestoras reflete a própria história da Portela
A Portela inicia sua caminhada rumo ao Carnaval 2026 mergulhando em uma das narrativas mais profundas e simbólicas da ancestralidade afro-brasileira. A azul e branca de Oswaldo Cruz e Madureira se reconecta com suas raízes, com sua gente e com sua essência, em um projeto que nasce do amor, da memória e da convicção de que tradição e futuro caminham juntos. O enredo do próximo desfile surge como expressão desse reencontro profundo, construído de dentro para fora, respeitando a ancestralidade e reafirmando a grandeza de uma escola que carrega o título de Majestade do Samba.
Intitulado "O Mistério do Príncipe do Bará: A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande", o enredo da Portela para 2026 levará à Marquês de Sapucaí a história de Custódio Joaquim de Almeida, liderança espiritual de origem africana que viveu no século XIX e se tornou referência fundamental na formação do batuque no Rio Grande do Sul. É um mergulho na fé, na realeza simbólica e na resistência da cultura negra no extremo sul do Brasil, resgatando uma ancestralidade pouco contada e devolvendo protagonismo a uma história marcada pela espiritualidade, pela dignidade e pela permanência dos valores africanos em solo brasileiro.
O enredo de 2026 fala de fé, de espiritualidade, de realeza negra e de sobrevivência cultural, conectando o passado ao presente com a sensibilidade que sempre caracterizou os grandes desfiles da escola. É uma escolha alinhada ao DNA portelense que entende o Carnaval como manifestação cultural, política e social, sem jamais perder a poesia e o rigor estético.
Esse projeto ganha corpo em um momento especial da escola. Desde a mudança de comando, a Portela vive um clima de união, entusiasmo e confiança. Para a vice-presidenta Nilce Fran, o atual ciclo representa um divisor de águas na história recente da Majestade do Samba. "A Portela está num momento único. Nós nos comprometemos com o melhor, com uma Portela melhor, aguerrida, apaixonada, feliz. A nossa chapa era a Portela Raiz porque nós estávamos trazendo o berço dessa escola e precisávamos buscar o melhor", afirma.
Segundo Nilce, o ambiente vivido hoje no barracão é reflexo direto desse compromisso. "Um bom enredo, um bom samba, uma boa bateria, um segmento que canta, uma comunidade que canta como ninguém. O resultado não pode ser diferente", diz, projetando uma escola preparada para emocionar do início ao fim do desfile. A expectativa é de uma Portela que reencontre na Avenida sentimentos que marcaram seus desfiles históricos. "Esperem da Portela algo que há muitos anos não se vê. Uma escola de amor, de paixão, de alegria."
A presença de Nilce Fran na vice-presidência carrega um peso simbólico imenso. Sua história dentro da Portela atravessa gerações, funções e segmentos. Porta-bandeira mirim ainda criança, ela construiu uma trajetória marcada pelo respeito à tradição, à velha guarda, às mães baianas e às mulheres que sustentaram a escola ao longo do tempo. "Nós somos porque elas foram", ressalta, ao falar da responsabilidade de ocupar um cargo histórico.
Nilce se tornou a primeira mulher vice-presidenta da Portela, preta, do samba, passista, formada dentro da própria escola. "É grandioso. Eu posso provar para cada menina e menino que eu formei que nós somos capazes, que nós podemos com respeito, seriedade, confiança e amor", afirma. Para ela, estar à frente da Portela não é apenas uma função administrativa, mas um compromisso espiritual e emocional. "Uma escola tem que sair campeã de dentro do barracão. E é isso que a Portela vai fazer."
Uma Portela rejuvenescida
Confirmando ainda mais esse reencontro com a sua origem, o presidente Júnior Escafura também é cria da Portela. Está na escola desde criança, e leva o legado do seu pai, que já foi presidente da agremiação. “Como a gente conhece muito a escola, tanto eu quanto a Nilce, a gente conhece cada canto dessa quadra, cada pedaço dessa história, conseguimos mexer muito com a questão do fundamento da Portela. Estamos resgatando a escola, trazendo pessoas que estavam afastadas e, ao mesmo tempo, rejuvenescendo a Portela. Fazendo o contraponto entre o presente e o passado e o futuro da Portela”, contou o presidente ao Correio da Manhã.
Ao acompanhar um dos últimos eventos de quadra da Portela neste pré-carnaval, a reportagem viu que a comunidade está cada vez mais engajada com o samba e potente em deu canto. “A comunidade está feliz, a gente também fez um trabalho muito bacana em cima da comunidade, uma comunidade que precisava ser mais valorizada, a gente está tentando dar mais condições para que eles possam ter todo o conforto enquanto desfilante, enquanto componente da nossa escola, para que a gente consiga fazer um grande carnaval”, finalizou Escafura.
A Rainha
À frente da bateria, Bianca Monteiro representa a continuidade desse projeto que une cultura, educação e transformação social. Rainha de bateria há dez anos, ela é cria da Portela e carrega no discurso a vivência de quem foi formada dentro da escola. "Eu acredito no poder das escolas de samba como espaços educativos. Cheguei aqui com 14 anos e estou até hoje. Muito da minha formação está diretamente ligada à rotina da Portela", destaca.
Bianca enxerga o samba como ferramenta concreta de mudança social. Para a diretora da "Filhos da Águia", a escola vai muito além do desfile. "Através do samba, conseguimos manter crianças e jovens longe das ruas, das drogas e da criminalidade. O samba tem essa potência transformadora", afirma. Como comunicadora e referência, ela entende que o título de rainha vem acompanhado de responsabilidade. "Eu tenho a obrigação de ajudar a formar uma geração melhor, usando a minha voz e a minha trajetória como exemplo."
A relação de Bianca com a comunidade é marcada pela verdade e pelo pertencimento. "Eu sou a comunidade", afirma com naturalidade. Para ela, o reconhecimento construído ao longo dos anos é o maior símbolo de sucesso. "Melhor do que ser rainha é ser amada." Ao completar uma década à frente da bateria, Bianca celebra o respeito conquistado por representar a Portela de dentro para fora, com compromisso, identidade e entrega.
No Carnaval 2026, a Portela promete mais do que um desfile tecnicamente competitivo. A escola prepara uma apresentação carregada de significado, ancestralidade e emoção, conduzida por mulheres que são a própria tradução da Majestade do Samba. Uma Portela que canta, que acredita, que educa e que volta à Sapucaí para lembrar ao Brasil por que seu nome atravessa o tempo como sinônimo de história, grandeza e verdade no carnaval.