Por: Rafael Lima

Mangueira transformará a Sapucaí em território de cura, memória e saberes afro-indígenas

Mangueira será a última escola a desfilar no domingo de Carnaval | Foto: Divulgação

Verde e Rosa narrará a trajetória do curador amapaense Mestre Sacaca

A Estação Primeira de Mangueira escolheu olhar para o Norte do Brasil em 2026 e levar à Marquês de Sapucaí uma história profundamente simbólica. O enredo da escola tem como fio condutor a vida e o legado de Mestre Sacaca, figura central da cultura afro indígena do Amapá, reconhecido por seu conhecimento sobre ervas medicinais, práticas de cura e pela forma como compreendia a relação entre o ser humano e a floresta.

Mestre Sacaca foi um curador popular, benzedor e guardião de saberes ancestrais. Seu conhecimento, transmitido oralmente, atravessou gerações e ajudou a preservar práticas ligadas à medicina tradicional, à espiritualidade e à identidade cultural do povo amapaense. Para ele, a floresta não era cenário, mas tecnologia de proteção, um sistema vivo que cuidava das pessoas tanto quanto elas deveriam cuidar dela.

Macaque in the trees
Estátua do curandeiro Mestre Sacaca | Foto: Governo do Estado do Amapá

Esse é o ponto de partida do desfile verde e rosa. O carnavalesco Sidnei França explica que o desafio vai além da estética e passa pela construção de uma experiência sensorial completa. "Eu sempre digo que o carnavalesco é, antes de um propositor visual, um arquiteto de emoções. Eu tenho que projetar um momento que se conecte com a ambientação da Sapucaí, o arrebatamento do público, isso tudo linkado com a narrativa histórica espiritual que o enredo propõe em especial neste ano enredo sobre Mestre Sacaca, homem que viveu e dedicou o seu conhecimento às práticas de cura, ao entendimento da floresta como tecnologia de proteção aos indivíduos, entender o homem como natureza", enumera a mente criativa por trás do desfile.

A floresta como identidade e narrativa

Ao levar Mestre Sacaca para a avendida, a Mangueira propõe uma inversão de olhar. Em vez de separar o homem da natureza, o enredo reforça a ideia de pertencimento. Essa leitura guia todo o projeto artístico da escola, dos figurinos às alegorias.

Segundo Sidnei França, a missão do carnavalesco é traduzir sensações e memórias em imagem. "Nós temos o hábito sempre de apartar homem da natureza e Sacaca via como uma coisa só então a minha missão primeira é ter a sensibilidade de colocar em materiais, em soluções estéticas, em cenografia, figurinos, a identidade de Mestre Sacaca, levando pro público uma imersão no ambiente afro indígena, nas práticas de cura, mas também na cultura negra que Sacaca tanto propagou", argumenta

A proposta visual se apoia em elementos orgânicos, naturais e simbólicos, criando uma leitura direta com os saberes tradicionais que marcaram a trajetória do homenageado.

No desfile, o conhecimento ancestral aparece costurado em cada detalhe. As fantasias se tornam extensão do enredo e ajudam o público a compreender, de forma visual, a dimensão da cultura afro indígena. "Nós temos fantasias com plantas, com ervas. Nós temos fantasias que fazem menção a chaleiras e bules com chás, infusões de cura. Nós temos fantasias com cascalhos, com sementes, enfim, justamente para o público da Sapucaí entender e se conectar com essa identidade afro indígena que Mestre Sacaca sempre defendeu", afirma o carnavalesco.

Macaque in the trees
Sidnei França propõe uma imersão profunda nos saberes afro-indígenas simbolizados pela figura de Mestre Sacaca | Foto: Divulgação

Essa construção simbólica busca facilitar a leitura do desfile, aproximando o espectador de práticas que fazem parte do cotidiano de comunidades tradicionais, mas que raramente ganham espaço em grandes narrativas nacionais.

A concepção do enredo também dialoga com outras linguagens além da visual. Sidnei França destaca que o trabalho começa muito antes da avenida e se desdobra em várias camadas. "O meu trabalho inicial é justamente esse, é desde o ponto zero, desde os desenhos, desde as proposições estéticas iniciais através de impressões visuais, mas também impactar na área musical, todos os sons, todas as texturas, todas as cores e até mesmo os aromas", antecipa Sinei, acrescentando que a ideia é que o desfile não seja apenas visto, mas sentido.

A geografia e a cultura do Amapá aparecem de forma direta em diferentes momentos do desfile. Um dos carros alegóricos faz referência ao Oiapoque, município mais ao norte do Brasil, carregado de simbolismo histórico e cultural. "Diversos elementos específicos da cultura afro indígena amapaense serão apresentados no desfile da Mangueira. Por exemplo, nós temos em um dos carros alegóricos uma menção muito forte ao Oiapoque. Vamos utilizar grafismos, simbologias que foram herdadas e ensinadas pelos indígenas e que formam a identidade do próprio estado do Amapá", explica Sidnei.

Outro destaque é a presença do Marabaixo, manifestação cultural considerada uma das mais representativas do estado. "Também a estética do Marabaixo, envolvendo tradições religiosas, ligações culturais através de caixas e tambores, a dança, as estampas dos trajes. Toda essa decodificação de signos amapaenses estará na Sapucaí com a Mangueira", revela o carnavalesco.

"O público pode esperar da Estação Primeira de Mangueira um desfile arrebatador no sentido de representar as tradições afro-indígenas do estado do Amapá na figura de Mestre Sacaca. Será um grande espetáculo", aposta Sidnei.