Atual campeã do carnaval carioca, escola de Nilópolis aposta no enredo histórico de Bembé do Mercado
A Beija-Flor de Nilópolis chega ao Carnaval de 2026 trazendo um enredo que remete à história, a cultura e as disputas simbólicas que sempre marcaram a trajetória da agremiação. Atual campeã do Grupo Especial, a azul e branco aposta em "Bembé do Mercado", tema que leva à Marquês de Sapucaí uma manifestação religiosa e social surgida no fim do século 19 e que se mantém viva como expressão de fé, resistência e organização coletiva do povo preto.
Ao longo de sua história, a Beija-Flor construiu uma identidade marcada por escolhas temáticas consistentes e por desfiles que unem impacto visual e narrativas coerentes. De diferentes fases criativas, a escola forjou uma linguagem própria, frequentemente voltada para questões sociais, culturais e históricas do Brasil, com raríssimas exceções. O enredo de 2026 conta a hsitória do Bembé do Mercado, celebração iniciada em 1889, no Recôncavo Baiano, quando o candomblé passa a ocupar espaços públicos.
Em entrevista ao Correio da Manhã, o carnavalesco João Vitor Araújo explica que o projeto dialoga com essa herança construída ao longo do tempo. "A Beija-Flor vem para 2026 com a mesma espinha erguida que sempre marcou a sua história. De Laíla ao Bembé existe uma continuidade muito clara, que é a defesa do samba como território de memória, consciência e afirmação do povo negro", afirma. Para ele, a escolha do tema também se conecta à atuação de Laíla, um dos nomes centrais da história da escola. "A gente sente muito a energia de Laíla dentro desse enredo. Sem dúvida, o Bembé é uma história que ele escolheria para contar, porque Laíla foi um pioneiro em colocar a história do povo preto no centro da avenida, com coragem, verdade e grandeza", destaca.
O Bembé do Mercado é uma celebração afro-baiana realizada no Mercado Municipal de Santo Amaro da Purificação, que reúne terreiros de Candomblé e a comunidade em um grande encontro público de fé e memória. Marcado por toques de atabaque, cantos e danças para os orixás, o evento costuma acontecer no período do pós-13 de maio, reafirmando os valores da luta pela liberdade. Ao ocupar um espaço cotidiano como o mercado, o Bembé transforma a cidade em território de celebração coletiva, reforçando laços comunitários e a continuidade das tradições de matriz africana. O enredo mergulha nas origens dessa manifestação iniciada pelo babalaô João de Obá, que levou práticas de candomblé para fora dos terreiros para ocupar a praça pública, um movimento que une fé, identidade e presença social.
"O Bembé do Mercado é esse mesmo gesto. Um ato de liberdade iniciado por João de Obá em 1889, quando o candomblé ocupa a praça pública e transforma fé em afirmação de existência", explica o carnavalesco ao comentar a essência do enredo.
Nos bastidores, a preparação da escola segue em ritmo intenso. O trabalho envolve pesquisa histórica, desenvolvimento artístico e participação direta da comunidade, elemento tradicional nos desfiles da Beija-Flor. "Os preparativos estão em um nível muito intenso de entrega, pesquisa e envolvimento da comunidade. Existe um sentimento coletivo de que estamos contando algo que nos atravessa de verdade", diz João Vitor.
Do ponto de vista estético, o desfile promete uma combinação entre inovação e referências tradicionais. A escola trabalha com novos materiais, recursos tecnológicos e soluções visuais, buscando ampliar a leitura do enredo sem perder a clareza narrativa. "O público vai ver uma Beija-Flor extremamente sofisticada, mas profundamente conectada ao chão, ao corpo e ao sagrado do Bembé. Estamos trabalhando com novas tecnologias e soluções visuais que ampliam a experiência do desfile, sem nunca perder a alma do carnaval", adianta.
Com o enredo de 2026, a Beija-Flor propõe um desfile centrado na memória, na religiosidade e na construção coletiva de identidade. A expectativa é apresentar na Sapucaí uma leitura consistente de um episódio histórico pouco conhecido do grande público, mantendo o equilíbrio entre espetáculo, narrativa e tradição carnavalesca.