Reynaldo Rodrigues
Especial para o Correio da Manhã
Com uma trajetória que atravessou seis décadas, o Festival de Brasília se consolidou como um dos principais espaços de exibição, debate e fomento do cinema brasileiro. Ao longo dos anos, o evento passou por diferentes períodos de dificuldade e manteve uma programação voltada à produção nacional e à diversidade de linguagens, temas e perspectivas presentes no audiovisual do país.
Depois de quase ser cancelado, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o mais antigo e tradicional do país, deu início à 59ª edição. O filme A Pele Morta foi um dos destaques da noite de abertura, realizada na última sexta-feira (11), no Cine Brasília. A cerimônia foi marcada por protestos, com vaias dirigidas à governadora do Distrito Federal, Celina Leão.
Dirigido pelos irmãos Denise Moraes e Bruno Fatumbi Torres, com produção de Solange Moraes e roteiro de Daniel Tavares, A Pele Morta acompanha a trajetória de um caminhoneiro, interpretado por César Troncoso, e de seu ajudante, vivido por Luan Iturve, um jovem rapper guarani-kaiowá, o longa deu o tom de todos os filmes exibidos até hoje, com destaque para a diversidade cultural do Brasil.
Homenagem
Outro destaque dos primeiros dias desta edição foi a homenagem à atriz Julia Lemmertz. Ela foi agraciada com o Troféu Candango de Conjunto da Obra. Na ocasião, Julia falou da importância do festival e do fazer cinema. "A gente precisa seguir contando histórias e preservando memórias". Em sua fala agradeceu a Jorge Durán, diretor de Cor do Seu Destino (1986), pelo qual foi premiada.
Primeira mão
A série "Delegado" foi exibida no último sábado (12), na Sala Vladimir Carvalho, no Cine Brasília. O público acompanhou três episódios da produção, que tem estreia prevista para 30 de outubro no Canal Brasil e na Globoplay. Dirigida pelos pernambucanos Marcelo Lordello e Leonardo Lacca, a série tem produção de Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux. A exibição também marcou o reencontro dos realizadores com o festival. Em 2007, Lacca recebeu o Candango de melhor direção pelo curta-metragem "Décimo Segundo". Lordello também já participou da programação competitiva com longas e recebeu o Candango de melhor longa de ficção por "Eles Voltam" (2012), seu primeiro trabalho no formato.
Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux, à frente da Cinemascópio, também mantêm uma trajetória ligada ao Festival de Brasília. No ano passado, "O Agente Secreto" foi exibido na abertura da 58ª edição do evento e recebeu destaque na programação.
Espaço para animações
As animações também ganharam espaço na programação do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, com filmes que abordam temas como memória, família, luto, identidade e diferentes aspectos da cultura brasileira. Entre os destaques estão Amadeo e o Hipotético Mundo Novo e Ana, en passant, produções que usam a linguagem da animação para construir narrativas ambientadas em diferentes períodos.
Ambientado no Brasil escravocrata do século XIX, Amadeo e o Hipotético Mundo Novo parte de uma hipótese: e se um jovem africano tivesse inventado a câmera fotográfica antes dos europeus? Dirigido e roteirizado por Brenda Lígia e Edu Felistoque, o longa acompanha Amadeo, personagem que utiliza sua invenção para registrar a realidade de seu tempo e contribuir para a luta pela libertação de pessoas escravizadas. A trama também inclui o romance do protagonista com a filha de um barão.
Já Ana, en passant, primeiro longa-metragem da cineasta Fernanda Salgado, utiliza a animação para tratar de memória, família e luto. A história acompanha Ana, uma jovem que deixa Paris e viaja para Belo Horizonte em busca de informações sobre o passado da própria família. Ao percorrer esses espaços e lembranças, a personagem se aproxima de histórias e ausências que fazem parte de sua trajetória.
Momento político
O documentário Tudo é Tempo, dirigido, roteirizado e produzido por Marcos Guttmann, também estreou na Mostra Competitiva do Festival, com a presença do cineasta e do montador Arthur Frazão. Filmado ao longo de 20 anos, entre 2002 e 2022, o longa acompanha Carlos Eduardo Ibrahim, Fernando Pereira, Heber Cunha e Cristiane Magalhães Rosa, moradores do Rio de Janeiro que votaram na mesma seção eleitoral durante três eleições de Lula. A produção registra as mudanças nas trajetórias e nas convicções dos personagens ao longo do período. Guttmann também participa do filme como narrador e personagem.
Destaque em Berlim
Depois de integrar a programação do Festival Internacional de Cinema de Berlim, realizado em fevereiro, Se Eu Fosse Vivo… Vivia, novo longa de André Novais Oliveira, chega ao Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A passagem pelo evento alemão marcou um capítulo da trajetória internacional do diretor e da produtora Filmes de Plástico, que já tiveram trabalhos selecionados e premiados em festivais como Cannes, Locarno e Rotterdam. Ambientado entre os anos 1970 e os dias atuais, o filme acompanha Gilberto e Jacira, casal que atravessa cinco décadas de vida em comum. A internação repentina de Jacira desencadeia acontecimentos que misturam memória, amor, drama, comédia e ficção científica.
Sobre o Festival
Na Mostra Competitiva Nacional, o 59º Festival de Brasília reuniu sete longas e 12 curtas nacionais de diferentes estados. Entre os longas também estiveram presentes, Todo o Sentimento, de Ary Rosa e Glenda Nicácio (BA) e Sabes de Mim, Agora Esqueça, de Denise Vieira (DF), além de Pequenas Tragédias e Privadas de Suas Vidas. Os filmes foram escolhidos por curadores sob supervisão da direção artística. Os selecionados receberam cachês de R$ 30 mil para longas e R$ 10 mil para curtas, além de concorrerem a prêmios em dinheiro. A cerimônia será realizada no Cine Brasília, na sexta-feira (19), das 17h às 20h, comandada por Bárbara Colen e Simone Zucolotto.
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