Aexposição "Nhe'e Se - Desejo de Fala", em cartaz no Petrobras Futuros - Arte e Tecnologia, no Flamengo, reúne 30 obras de 13 artistas indígenas contemporâneos de 12 povos. A mostra propõe uma discussão que ultrapassa a presença indígena como tema: trata de reconhecer conhecimentos, materiais e modos de fazer como tecnologias vivas.
A curadoria é de Sandra Benites, pesquisadora Guarani Nhandeva e doutoranda em Antropologia Social pelo Museu Nacional da UFRJ. Segundo a organização, Benites foi a primeira curadora indígena a integrar a equipe de um museu no Brasil. Com assistência de Rodrigo Duarte, ela reúne trabalhos de Ana Maria Kariri, Glicéria Tupinambá, Keyla Palikur, Kuenan Mayu, Luakam Anambé, Mandacaru Karajá, Mandú, Paulo Desana, Sioduhi Waíkhun, Vilmone Guarani, Ypituna Pankararu e Ziel Karapotó.
O título, que remete ao desejo de fala, dá a chave da exposição: em vez de enquadrar a produção indígena por uma oposição entre tradição e contemporaneidade, "Nhe'e Se" apresenta práticas em que território, memória, oralidade e criação material compõem formas de conhecimento. Fotografias, têxteis, redes, maracás, plumas, desenhos, esculturas e instalações atravessam a mostra. A diversidade de linguagens não funciona como inventário de etnias, mas como uma aproximação de experiências que preservam autonomias e, ao mesmo tempo, se afirmam no debate artístico atual.
"A arte contemporânea produzida por artistas indígenas é um sistema tecnológico que atualiza as realidades de cada comunidade indígena", afirma Sandra Benites, em texto de apresentação. "Mais que uma mostra de arte, Nhe'e Se é um espaço de ativação da luta, fortalecimento e afirmação daqueles que aqui sempre estiveram." A formulação ajuda a entender o recorte da exposição: a tecnologia não aparece somente na mediação digital ou na máquina, mas também na ciência dos pigmentos naturais, na construção de vestimentas, na trama de fibras, no conhecimento das plantas e nas formas de transmissão entre gerações.
Um dos pontos de destaque é um manto tupinambá confeccionado em 2024 por Glicéria Tupinambá. A peça esteve na 60ª Bienal de Veneza, em 2024, dentro da instalação "Okará Assojaba", apresentada no Pavilhão do Brasil, então rebatizado de Pavilhão Hãhãwpuá. De acordo com o release, o manto dialoga com exemplares históricos mantidos em coleções europeias e foi realizado a partir de conhecimentos tradicionais do povo Tupinambá da Serra do Padeiro. Sua produção levou cerca de oito meses e utilizou aproximadamente 5 mil penas, além de cerca de 500 metros de linha de algodão encerada com cera de abelha do território.
A presença da obra também desloca uma discussão recorrente nos museus: como tratar objetos e técnicas indígenas sem reduzi-los a vestígios de um passado imobilizado. Em "Nhe'e Se", a recriação contemporânea afirma continuidade, autoria e pensamento crítico. O percurso inclui ainda trabalhos que, conforme a apresentação, articulam corpo, gênero, sustentabilidade, espiritualidade e território. Mayu Kuenan, artista Magüta (Tikuna) e Tariano, por exemplo, trabalha entre pintura, performance, fotografia, vídeo e instalação; Ana Maria Kariri combina artes visuais, literatura e arte-educação em uma trajetória ligada à memória dos povos originários do Nordeste.
O local acrescenta outra camada ao projeto. O Petrobras Futuros dedica sua programação às relações entre arte, tecnologia e futuros possíveis. "Nhe'e Se" propõe que esse futuro seja lido a partir de conhecimentos que resistiram à violência colonial e continuam produzindo imagens, métodos e linguagens para o presente. "Ativar o espaço Petrobras Futuros é a mobilização de um traçado que artistas indígenas confeccionam coletivamente para reivindicar um encontro de fala aberta e direta", diz a curadoria.
Além da abertura, a programação prevê uma visita mediada por Sandra Benites no sábado (29), às 11h. A exposição tem entrada gratuita e classificação livre. Para quem chega ao centro cultural em busca de arte contemporânea, a mostra oferece uma oportunidade de olhar para a inovação fora do repertório habitual: não como ruptura com o passado, mas como relação ativa entre memória, matéria, comunidade e futuro.
SERVIÇO
NHE'E SE - DESEJO DE FALA
Petrobras Futuros - Arte e Tecnologia (Rua Dois de Dezembro, 63, Flamengo)
tura: 28 de agosto, às 19h
Até 11/10, quarta a domingo (11h às 20h) | Grátis
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