Artes Plásticas

Para entender Vik Muniz

CCBB RJ promove visita mediada à maior retrospectiva do artista mundialmente conhecido por sua obra com materiais reciclados e exibe o doc. 'Lixo Extraordinário', documentário que acompanhou seu trabalho no maior lixão da América Latina

Para entender Vik Muniz
O catador Tião Santos em cena do documentário 'Lixo Extraordinário'... Crédito: Divulgação

O pterossauro suspenso na Rotunda do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB RJ) CBB tem 8,20 metros de envergadura e é feito de polímero infundido com cinzas do Museu Nacional, destruído pelo incêndio de 2018. Lá embaixo, no chão, um tapete de dez metros de diâmetro estampa "Medusa Marinara", obra em que Vik Muniz desenhou o mito greco-romano com molho de tomate. Na entrada, em frente à bilheteria, uma Ferrari de mais de quatro metros e 650 quilos — reprodução em tamanho real de um carrinho Matchbox que o artista tinha na infância. São três dos 225 trabalhos que compõem "Vik Muniz - A Olho Nu", a maior e mais abrangente retrospectiva já dedicada ao artista, em cartaz até 12 de outubro.

A exposição é um sucesso de público e nesta quarta-feira (5) ganha uma camada extra. Às 15h, o curador Daniel Rangel — que acompanha a trajetória de Muniz desde 1999 — conduz uma visita mediada pelo percurso expositivo, que ocupa a Rotunda, o térreo e todo o primeiro andar do CCBB. Completando a programação extra, às 18h, no Cinema I, haverá sessão única de "Lixo Extraordinário" (2010), documentário de Lucy Walker com codireção de João Jardim e Karen Harley e trilha sonora de Moby, indicado ao Oscar de melhor documentário em 2011.

Macaque in the trees
... e o resultado da obra inspirada na imagem acima | Foto: Divulgação

O filme acompanha Vik Muniz em uma de suas aventuras mais ambiciosas. Durante quase três anos, o artista mergulhou no Jardim Gramacho, o maior lixão a céu aberto da América Latina — que funcionou de 1976 a 2012, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense —, onde cerca de 3 mil catadores de materiais recicláveis arrancavam a sobrevivência diária entre montanhas de detrito. Muniz não foi lá para fotografar o sofrimento alheio. Fez outra coisa: convidou os catadores para dentro do processo criativo. Tião, Isis, Zumbi e outros trabalhadores passaram a colaborar na montagem de retratos monumentais feitos com o próprio lixo do aterro — sucatas, plásticos, restos orgânicos decompostos em texturas pictóricas. As obras foram fotografadas e vendidas em leilões internacionais, e o dinheiro voltou para Gramacho sob forma de moradia, educação e infraestrutura.

O impacto foi duplo. Econômico, sem dúvida: vidas mudaram. Mas também simbólico. Os catadores deixaram de ser figuras invisíveis da cadeia de descarte para se tornarem protagonistas de uma obra de arte reconhecida mundialmente. Tião, que no filme declara com firmeza "nós não somos catadores de lixo, somos catadores de materiais recicláveis", tornou-se uma espécie de porta-voz de uma categoria. O documentário recebeu 29 prêmios em festivais como Sundance, Berlim e Estocolmo — quase todos por voto popular, o que diz algo sobre a capacidade da obra de tocar quem a vê.

"A retrospectiva é um passeio pela produção do artista, desde suas obras tridimensionais, criadas antes do uso da câmera fotográfica, até suas séries de fotos mais conhecidas e as mais recentes", destaca Rangel.

A versão carioca, que chegou ao Rio após circular por Recife e Salvador em 2025, foi ampliada com cerca de 20 trabalhos novos em relação às etapas anteriores, cinco deles criados especialmente para esta mostra em 2026. Entre os inéditos estão esculturas como "O segredo", "Herói" — conjunto de dez peças em mármore escuro que remetem a pinos de boliche — e "Dardos".

A exposição também incorporou seis séries ausentes das etapas anteriores. "Principia" (1997-2002) investiga o estatuto da verdade associado à imagem fotográfica por meio de um visor estereoscópico. "Verso" (2008/2012) desloca o olhar para o que permanece oculto: etiquetas, carimbos, vestígios de circulação institucional que narram a trajetória material da obra. "Veículos Mnemônicos" inclui a gigantesca Ferrari, vinda de Turim. "Museu de Cinzas" nasceu do incêndio do Museu Nacional: o artista recria imagens de artefatos da coleção usando cinzas recolhidas no local — como "Luzia" (2019), reconstituição do fóssil humano mais antigo do Brasil. "Colônias" (2014-2016), desenvolvida durante residência no MIT em colaboração com o biólogo Tal Danino, produz obras a partir de células vivas fotografadas por microscopia. E "Os Arquivos de Weimar", inventário iniciado numa viagem à cidade alemã berço do Classicismo e da Bauhaus, em que Muniz mistura fotos de fotografias encontradas, fotos de documentos e imagens que ele mesmo produziu — cabendo ao público tentar distinguir as reais das "de mentira".

A série "Relicário" marca um ponto de virada na trajetória de Muniz. Nela, o artista explora intencionalmente a ambiguidade das matérias-primas: objetos reconhecíveis produzidos com materiais inesperados. Foi a partir dessa série que a fotografia entrou em sua vida — como ferramenta de documentação das esculturas — e acabou se tornando o núcleo de sua prática.

Nascido em São Paulo em 1961, filho de imigrantes do Ceará e de Minas Gerais, Vik Muniz mudou-se para Nova York aos 22 anos com apenas a passagem aérea e a determinação de ser artista. Hoje mantém ateliês em Nova York, Rio e Salvador, e suas obras integram acervos de instituições como o Centre Georges Pompidou, o Museo Reina Sofía, o Solomon R. Guggenheim Museum e a Tate Gallery. Foi nomeado Embaixador da Boa Vontade da Unesco, fundou a Escola Vidigal, no Rio, e abriu o Lugar Comum, galeria instalada no Mercado São Joaquim, em Salvador.

SERVIÇO

VIK MUNIZ - A OLHO NU

CCBB Rj (Rua Primeiro de Março, 66, Centro)

Até 12/10, quarta a segunda (9h às 20h)

5/8, às 15h: Visita mediada com o curador Daniel Rangel | 18: Exibição de "Lixo Extraordinário"

Entrada gratuita, com retirada de ingressos na bilheteria a partir das 9h ou pelo site www.bb.com.br/cultura