Quem é do subúrbio carioca conhece a cena mais do que ninguém: o estouro dos fogos, o som das bolas batendo no chão, a fumaça colorida e, de repente, eles: os bate-bolas, também chamados de Clóvis. Figuras mascaradas, brilhantes, misteriosas, tomando a rua em bando. Para uns, susto. Para outros, encanto. Para milhares de cariocas, sinônimo de carnaval. Essa festa que nasceu nos quintais e galpões da Zona Norte, Oeste e da Baixada Fluminense agora se transforma na exposição "Clóvis: o rosto detrás da máscara", em cartaz na Biblioteca Parque Estadual, no Centro.
A mostra reúne indumentárias completas e originais apresentadas por diversas turmas de bate-bolas do carnaval de 2026, entre elas a Turma Bem Feitos, Turma Bem Feitas, Turma Animação da Ilha do Governador, Velha Guarda de Paciência e Turma Empoderadas. Outros grupos também se fazem presentes por meio de adereços, registros audiovisuais e fotografias que exploram o corpo mascarado, o brilho, o som e o gesto como expressões estéticas e políticas de identidade. Haverá visita mediada na abertura e no encerramento.
Reconhecidos como Patrimônio Cultural Imaterial da cidade do Rio de Janeiro desde 2012, os bate-bolas estão entre as imagens mais fortes do carnaval carioca. Mas, para o curador Rennan Carmo, essa visibilidade ainda esconde muita coisa. "A ideia da exposição surge da oportunidade de debater como os bate-bolas são amplamente reconhecidos como imagem do carnaval carioca, mas pouco compreendidos a partir das pessoas que constroem essa manifestação. O projeto propõe deslocar o olhar da fantasia como espetáculo para a fantasia como processo e linguagem", afirma.
Já para o idealizador, Felipe Soares, as roupas ajudam a contar, de maneira mais sutil, a importância dos bate-bolas, uma expressão artística que nasceu nos subúrbios. "Falar por meio das roupas é fundamental porque elas concentram camadas: técnica, identidade, estética e pertencimento. A fantasia não é apenas um figurino, mas um dispositivo que transforma o corpo, organiza relações dentro da turma e comunica valores e narrativas do território", destaca.
O percurso expositivo convida o visitante a viver dois tempos da festa popular. Na primeira parte, a rua: o grande palco das turmas, com as saídas coletivas numa profusão de cores, texturas e brilhos, resultado de quase um ano de trabalho entre a escolha do tema e o desfile. Na segunda, os bastidores: o universo íntimo e quase inacessível que fica por trás das máscaras, onde pintores, costureiras, aderecistas e produtores transformam quintais, varandas e galpões em verdadeiras famílias ampliadas. Com recursos próprios, os integrantes juntam suas economias durante meses para materializar o sonho.
A exposição também enfrenta um incômodo antigo: o estigma. Frequentemente associada à marginalidade ou à desordem, a cultura dos bate-bolas é apresentada como uma força legítima de expressão artística no espaço público, produtora, inclusive, de laços fraternais entre vizinhos, membros e turmas. "A exposição contribui para ampliar a compreensão do carnaval para além dos circuitos mais visíveis, jogando luz em manifestações que fazem parte do cotidiano de muitos territórios do Rio, mas que ainda são pouco valorizadas institucionalmente. O público pode esperar uma aproximação mais direta com os processos de criação, com as histórias das turmas e com a complexidade dessa prática", afirma Rennan Carmo.
SERVIÇO
CLÓVIS: O ROSTO POR TRÁS DA MÁSCARA
Biblioteca Parque Estadual (Av. Pres. Vargas, 1261, Centro)
Até 21/8, de segunda a sexta (10h às 17h)
Grátis
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