Um azul impossível de nomear. Assim Adélia Prado descreve a cor que habita um de seus poemas — aquela que surge entre o dormir e o despertar, entre o vivido e o sonhado. A partir deste sábado (4), durante o Circuito Bhering, a Galeria Dobra/ArtNova transforma essa imagem poética em experiência visual. A exposição "A Cor de um Sonho" reúne 27 artistas que dialogam com as dimensões do invisível, do intuitivo e do imaginado, oferecendo ao público uma conversa entre a palavra de Prado e a linguagem plástica.
O ponto de partida é preciso: no poema que inspira a mostra, a poeta mineira narra um sonho feito de preparativos, tecidos, revelações e cores. Há vermelhos refletidos nos cabelos, uma sempre-viva amarela de miolo azul — aquele azul singular que ultrapassa a própria palavra. Adélia Prado encerra o poema com uma afirmação simples e potente: "Eu sonhei uma cor. Agora, sei".
A curadoria de Marcelo Rezende encontra nessa imagem um eco na trajetória de Yves Klein, artista francês que dedicou grande parte de sua obra à investigação do azul como experiência imaterial. O Azul Klein, desenvolvido por Klein em 1960, não representa o céu ou o mar — é um campo aberto à contemplação, ao infinito e ao imaginário. Uma cor capaz de existir para além da descrição, exatamente como acontece nos sonhos.
Entre os 27 artistas da coletiva estão nomes como Ana Luiza Mello, Bruno Castaing, Camilo Portugal, Carlomagno, Denise Braune, Daniel Franco, Danielle Castaing, Dulce Lysyj, Elza Suzuki, Fátima Vollú, Hortensia Pecegueiro, Ise Meirelles, Jac Carrara, Leila Bokel, Luiza Vieira, Maria Ignez, Mônika Moreira, Marcelo Rezende, Nilmar Ashton, Nicole Vivoni, Patrícia Secco, Rose Aguiar, Ricardo Hachiya, Sandra Schechtman, Silvia Azevedo e Virna Santolia. A diversidade de trajetórias e linguagens plásticas sugere uma abordagem plural sobre o tema — não uma única resposta, mas múltiplas formas de habitar o espaço entre o visível e o invisível.
A proposta da curadoria dialoga com uma questão central na poesia de Adélia Prado: a capacidade de transformar o cotidiano, o sonho e a intuição em matéria de reflexão. Seus poemas, publicados desde 1976 com o livro "Bagagem", entrelaçam o sagrado e o profano, o trivial e o transcendente, oferecendo uma linguagem direta que toca o leitor. A exposição convida os artistas visuais a fazer algo semelhante: dar forma, cor e presença àquilo que habita o espaço entre o imaginado e o real, aquilo que insiste em existir mesmo quando não conseguimos nomeá-lo com precisão.
SERVIÇO
A COR DE UM SONHO
Galeria Dobra/ArtNova (Rua Orestes, 28, 2º andar, Fábrica Bhering, Santo Cristo)
De 4 a 25/7, quintas e sextas (12h30 às 17h) e sábados (10h às 18h)
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