Por: Affonso Nunes

Pelos sonhos sombrios de Morfeu

Ciro Palomino traduz urgências políticas e sociais em linguagem visual na exposição 'Morfeu' | Foto: Divulgação

Individual do artista peruano Ciro Palomino parte dos pesadelos do ser mitológico para refletir sobre conflitos humanitários

O artista peruano Ciro Palomino apresenta a exposição "Morfeu: Pesadelos e Despertares" no Centro Cultural Correios RJ a partir de 25 de março. A mostra reúne obras que narram os sonhos sombrios do deus mitológico, causados pela humanidade e seus conflitos — guerra, autodestruição, mudanças climáticas e desigualdade de gênero. Apesar da temática pesada, as obras trazem um fio condutor de esperança, funcionando como um contraponto ao desespero que poderiam sugerir.

Formado pela Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP), Palomino trabalha há mais de uma década com questões sociais e ambientais. Desde 2016, quando ganhou prêmio da ONU em concurso internacional, suas criações refletem temas de urgência global. Seu projeto "Consciência" — que aborda problemas sociais — teve primeira exposição em 2017 na sede da ONU em Nova York e circulou pelo Brasil entre 2019 e 2022, sendo visto por mais de 200 mil pessoas. Palomino também participou de exposições coletivas na Suíça, China, Irã e Turquia, consolidando seu foco em problemáticas humanitárias.

A exposição atual é uma sequência natural dessa trajetória. "Temos sonhos e pesadelos. Meu trabalho social me permitiu expressar o que sinto de uma forma que é expressiva e universal", explica o artista. "Hoje vivemos em mundos estranhos e tumultuosos, cheios de medos e orações, perdão e culpa; um mundo que anseia por despertar, assim como as pessoas que o habitam." A escolha de Morfeu como figura central não é aleatória: o deus grego dos sonhos funciona como metáfora para o inconsciente coletivo, para aquilo que a humanidade reprime mas que insiste em retornar nas noites — ou nas crises. A curadoria é de Carlos Bertão, e o projeto expográfico de Alê Teixeira. O Consulado Geral do Peru no Rio de Janeiro apoio a iniciativa.

A relevância da mostra está em sua capacidade de traduzir urgências políticas e sociais em linguagem visual. Em um contexto onde conflitos geopolíticos se intensificam, onde as mudanças climáticas ganham cada vez mais espaço nas agendas públicas e onde as desigualdades persistem, uma exposição que coloca esses temas no centro de uma reflexão artística oferece um espaço de diálogo. Não se trata de uma denúncia panfletária, mas de uma exploração metafórica que convida o espectador a pensar sobre seu próprio papel nesse "mundo estranho e tumultuoso" que Palomino descreve.

SERVIÇO

MORFEU: PESADELOS E DESPERTARES

Centro Cultural Correios RJ (Rua Visconde de Itaboraí, 20, Centro)

Até 9/5, de terça a domingo (12h às 19h) | Entrada franca