Governo regional basco exige transferência da tela mais célebre de Picasso para a cidade que inspirou a obra
A tela "Guernica", o quadro mais célebre de Pablo Picasso (1881-1973), voltou a ser centro de uma disputa política que divide instituições e governos na Espanha. O governo regional do País Basco solicitou a transferência temporária da obra para a região, especificamente para Gernika, a cidade bombardeada em 1937 por forças alemãs e italianas durante a Guerra Civil Espanhola. A proposta prevê uma exibição de nove meses como parte das homenagens aos 90 anos do bombardeio, que completa essa marca em abril.
A iniciativa ganhou peso político ao envolver o PNV, partido basco que integra a base de apoio do premiê Pedro Sánchez (PSOE). O PNV avalia que rejeitar a proposta seria "um erro político grave", sinalizando a importância que a questão assume para a região. O timing também coincide com os 90 anos da pintura, previsto para o próximo ano. Para o governo basco, a transferência representaria uma "reparação simbólica" — reconhecimento do vínculo histórico entre a obra e o território que a inspirou.
A resistência, porém, é significativa. A presidente regional de Madri, Isabel Díaz Ayuso (PP), criticou a iniciativa classificando-a como "provinciana". Seu argumento toca em questões de lógica patrimonial: "O que não faz sentido é voltar às origens das coisas apenas quando nos convém, porque então teríamos que levar toda a obra de Picasso para Málaga", comparou, referindo-se ao local de nascimento do artista. Ayuso também levantou preocupações técnicas, alertando para riscos à integridade da obra.
Essas preocupações técnicas não são infundadas. Relatórios encomendados pelo Ministério da Cultura ao Museu Reina Sofía — onde "Guernica" está exposto desde 1981 — indicam que o transporte pode causar danos estruturais significativos. As vibrações inevitáveis durante o deslocamento poderiam provocar rachaduras, perda de tinta e rasgos na pintura. O quadro já apresenta um estado delicado de conservação, o que amplifica os riscos. O museu, em ocasiões anteriores, já havia negado pedidos similares de empréstimo. Desde sua repatriação do MoMA em Nova York, há mais de quatro décadas, "Guernica" nunca deixou Madri.
O Ministério da Cultura, através de seu titular Ernest Urtasun, considera o assunto encerrado. "Trabalhamos para melhorar a acessibilidade da cultura e, portanto, saudamos a mobilidade da arte. Mas, como Ministério da Cultura, também temos o dever de preservar nosso patrimônio, e os especialistas sempre desaconselharam a movimentação de 'Guernica' devido ao seu estado delicado de conservação, pois já está muito danificada", sustenta.
O governo basco, por sua vez, não questiona o estado de conservação da obra, mas cobra estudos específicos sobre quais seriam as condições técnicas seguras para uma eventual transferência temporária. Até o momento, afirma, não houve resposta nesse sentido do ministério — uma posição que mantém a questão em aberto, ainda que institucionalmente fechada.
A disputa parece refletir tensões mais amplas do que debate patrimonial, resvalando na histórica resistência do povo basco (separatistas) em relação ao governo central espanhol. "Guernica" é visto pelos bascos como símbolo da memória coletiva para a região. Sua permanência em Madri, para alguns, representa uma forma de apropriação centralista de um patrimônio que deveria estar mais próximo de seu contexto histórico. Por outro lado, há quem defenda que a obra transcendeu seu local de origem para se tornar patrimônio universal e, portanto, sua permanência em um museu de referência internacional é necessária.
A questão permanece em suspenso: nem o governo basco desistiu da proposta, nem o ministério sinalizou abertura para negociações. O que começou como um pedido simbólico para marcar uma efeméride histórica evoluiu para um debate sobre soberania cultural, responsabilidade patrimonial e o significado de "reparação" em contextos de memória histórica.