Exposição no Centro de Artes UFF propõe travessia sensorial pela vida de mulheres
Todo labirinto tem uma saída. Essa é a premissa mais e, por que não radical, de "Sobreviventes", exposição que ocupa o Centro de Artes UFF, em Niterói, a parrtir desta quarta-feira (4). Com curadoria da cineasta Juliana Gouveia, a mostra multiplataforma começa exatamente onde tantas histórias parecem não ter continuidade: no interior de um labirinto.
Metáforas à parte, Juliana escolheu o labirinto como estrutura central da experiência porque ele é, antes de tudo, uma sensação familiar para mulheres em situação de violência doméstica. "A violência doméstica dá essa sensação de aprisionamento, de não haver saída. Mas há saída, e essas sete histórias mostram caminhos possíveis para romper o ciclo", explica a idealizadora, que atua no cinema desde 2009 com foco em narrativas femininas.
Dentro do labirinto, o público não encontra o Minotauro, mas vozes. Sete vozes, reais, interpretadas por atrizes convidadas (Helen Salgado, Thais Peixoto, Regina Elena, Zeza Barral, Juliana Terra, Badu Morais e Matheuzza Xavier), intercaladas entre fotografias, obras têxteis e ilustrações das artistas plásticas Claudia Tavares, Giselle Wanderley, Clara Mazini e Fabíola Triñca que evocam o espaço doméstico. São as Áudio-Histórias, peça central da mostra: relatos que habitam o tempo lento de quem aprende a nomear o que viveu.
A saída do labirinto não é o fim — é o começo do segundo percurso. Lá, uma videodança abre o corpo para outro vocabulário: o da liberdade. Da reconstrução. Do autoamor redescoberto. "Sobrevivenetes é sobre como cada uma dessas mulheres passou a reconstruir seus sonhos, encontrando novos projetos de vida após saírem da situação de violência. É sobre os futuros possíveis e as descobertas de se viver em liberdade", diz a curadora.
O Brasil ainda convive com índices alarmantes de feminicídio — a maioria dos casos dentro do próprio lar —, mesmo após a Lei Maria da Penha (2006) e a Lei do Feminicídio (2015). Para Maria da Penha, fundadora e presidente de honra do instituto que leva seu nome, a exposição amplifica uma narrativa urgente. "Precisamos falar das sobreviventes não somente como exceções diante das estatísticas avassaladoras do feminicídio, mas também como mulheres que seguem existindo e que encontram na liberdade um horizonte de possibilidades", destaca.
Com apoio do Instituto Maria da Penha e do Ministério Público do Rio de Janeiro, a exposição faz da arte uma ferramenta de orientação concreta. Ao fim da visita, o público pode levar panfletos com informações sobre como pedir ajuda. No site da mostra, há caminhos detalhados para realizar denúncias, solicitar medida protetiva e registrar boletim de ocorrência online.
SERVIÇO
SOBREVIVENTES
Centro de Artes UFF (Rua Miguel de Frias, 9, Icaraí - Niterói)
De 4/3 a 12/4,
Entrada franca