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Nas cores das veredas do Sertão

As telas de Graça Herdy mergulham na essência dos personagens e paisagens roseaanas após anos de pesquisa | Foto: Divulgação

Exposição da gaúcha Graça Herdy celebra os 70 anos da obra-prima de João Guimarães Rosa

Setenta anos depois de João Guimarães Rosa entregar à Editora José Olympio as quase 600 páginas de "Grande sertão: veredas", esta obra-prima da literatura brasileira ganha nova vida em tintas, cores e traços da artista visual gaúcha Graça Craidy na exposição "Grande Sertão", que reúne 50 obras que traduzem em imagens a travessia literária do romance publicado em 1956.

Em cartaz no Centro Cultural dos Correio de Niterói, a mostra traz retratos dos principais personagens da narrativa de roseana: Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes, Zé Bebelo, Otacília, Nhorinhá, Manuelzão, Sô Candelário e Quelemém. O próprio escritor mineiro, eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963, aparece em dois retratos. Em um deles, Guimarães Rosa se embrenha no Cerrado mineiro a cavalo ao lado de vaqueiros, cena que de fato aconteceu na fase em que coletava dados para escrever a obra. A flora e a fauna da região onde se desenvolve a narrativa ambientam a exposição, com coqueiros buritis, pássaros e aves criados pela artista.

Para ter domínio da temática e aguçar sua inspiração, Graça Craidy, que vive e mantém ateliê em Porto Alegre, não só leu o romance como fez um curso sobre o livro, durante o qual leu, releu e debateu a narrativa por meses com a professora da USP Maria Cecilia Marks. A artista também pesquisou teses, monografias e ensaios sobre a obra e assistiu algumas vezes ao monólogo "Riobaldo", protagonizado pelo ator carioca Gilson de Barros, com direção de Amir Haddad. O ator fará um pocket show na abertura da exposição.

"Espero que os visitantes se encantem com a história em quadros do meu 'Grande Sertão' particular, expressionista, apaixonado, de cores turvas, ternas e terrosas. Em cada personagem, cena, gesto, o meu gentil convite para despertar nas pessoas o desejo de ler esse grande romance", afirma Graça. A artista define seu trabalho como expressionista e apaixonado, traduzindo em cores a densidade do romance que mergulha no Brasil profundo.

Esta é a quinta vez que Graça une sua arte à literatura. A primeira foi na coleção "Clarices", com 33 retratos de Clarice Lispector. Depois vieram as coletivas "Autorias I" e "Autorias II", que organizou e participou ao lado de 42 artistas gaúchos retratando 51 escritores do Rio Grande do Sul. Em novembro e dezembro de 2025, foi curadora e artista de "Erico", homenagem aos 120 anos de nascimento de Erico Verissimo, ao lado de 46 colegas.

Mineiro de Cordisburgo, Guimarães Rosa morava no Rio, na Rua Francisco Otaviano, em Copacabana, quando escreveu "Grande Sertão: Veredas". Ao amigo Azeredo da Silveira, colega no Itamaraty, confidenciou à época: "Passei três dias e duas noites trabalhando sem interrupção, sem dormir, sem tirar a roupa, sem ver cama: foi uma verdadeira experiência transpsíquica, estranha, sei lá, eu me sentia um espírito sem corpo, pairante, levitando, desencarnado - só lucidez e angústia. Passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo, escrevendo eternamente".

Recebido com aplausos pela crítica, principalmente por suas inovações linguísticas, o livro foi um dos mais vendidos durante meses e venceu prêmios literários como o Machado de Assis. Em 2002, integrou a lista dos 100 melhores livros de todos os tempos do Clube do Livro da Noruega, sendo a única obra brasileira na relação selecionada por 100 escritores de 54 países.

Na leitura de Graça Craidy, "Grande Sertão: Veredas" retrata "o Brasil profundo, em plena mudança do Império para República, a contragosto dos senhores de terra e coronéis que viam no poder central republicano a anulação do seu poder histórico". Para ela, naquele cenário de batalhas entre fazendeiros e jagunços contra a polícia e os novos políticos, "um sertão recortado por rios, veredas, coqueiros-buritis, pássaros e animais selvagens acoita homens comuns incomuns à cata de poder e de Deus, em fuga da morte e do Diabo, divididos entre o bem e o mal, regurgitando questões caras à humanidade, como o amor, e mais que amor, o amor entre dois guerreiros: Riobaldo e Diadorim".

SERVIÇO

GRANDE SERTÃO

Espaço Cultural Correios Niterói (Av. Visconde do Rio Branco, 481, Centro)

Até 28/3, de segunda a sexta (11h às 18h) e sábados (13h às 18h)

Entrada franca