Matheus Rocha (Folhapress)
Joias da arte moderna e contemporânea voltarão para a região em que foram concebidas. O Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires, o Malba, comprou os 1.233 trabalhos que fazem parte da Daros Latinamerica, instituição com sede em Zurique, na Suíça, que guarda trabalhos de nomes basilares da arte nacional, como Lygia Clark, Hélio Oiticica, Mira Schendel e Antonio Dias. Com a aquisição, o acervo do museu portenho irá praticamente dobrar, passando de cerca de 1.400 para 2.633 obras.
"Essa aquisição é um grande posicionamento em favor da arte latino-americana", diz Eduardo Costantini, empresário argentino que fundou o Malba, em 2001. "É importante que essa coleção volte para a nossa região e se torne pública por aqui novamente."
Os novos trabalhos dividirão espaço com o "Abaporu", de Tarsila do Amaral, uma das principais obras do museu. Em 1995, o empresário comprou o quadro da brasileira num leilão em Nova York por US$ 1,3 milhão.
Hoje, a tela, que é um marco para o modernismo no Brasil, é estimada em US$ 50 milhões, cerca de R$ 270 milhões, quase 40 vezes mais do que o seu valor inicial.
Outra obra célebre do acervo da instituição é "Autorretrato com Macaco e Papagaio", da mexicana Frida Kahlo, que Costantini adquiriu por US$ 3,2 milhões, em 1996. O executivo, porém, desconversou ao ser questionado sobre o valor da nova coleção. "Não estamos autorizados a divulgar o preço do acervo."
O desejo de adquirir esses trabalhos nasceu em 2015, quando a Casa Daros fechou as portas no Rio de Janeiro em Botafogo. A filial brasileira funcionava num antigo casarão em Botafogo, onde realizou 20 exposições antes de encerrar as atividades, em dezembro daquele ano.
"Desde que a Daros interrompeu o seu funcionamento no Rio, comecei a pensar sobre o que aconteceria com a coleção. Sempre entendi a sua importância artística", diz Costantini. Além das obras de 19 artistas brasileiros, o acervo também traz trabalhos do venezuelano Carlos Cruz-Díez, do argentino Julio Le Parc e da cubana Ana Mendieta.
"Essa aquisição não é apenas a compra de uma peça, mas de um grande acervo. Para a gente, isso é algo incrível, mas que também gera desafios", diz o empresário. "Precisamos de mais curadores para cuidar de toda a coleção. Além disso, é preciso haver seguro e mais espaço para exibir a produção, já que estamos quase dobrando a quantidade de trabalhos."
Por esse motivo, o Malba passará por reformas. A nova galeria da instituição terá mil metros quadrados e ficará na parte subterrânea da Plaza República del Perú, localizada ao lado da sede do museu. "O novo edifício é como uma caixa subterrânea com um teto transparente do tamanho de uma quadra de tênis", diz Costantini.
Com a reforma, a expectativa é que a área do museu dobre de tamanho, chegando a cerca de 8.300 metros quadrados. Toda essa operação deve custar US$ 20 milhões, aproximadamente R$ 108 milhões. A construção começará após setembro do ano que vem, quando o Malba comemora 25 anos, e deve ser concluída em 2029.
É uma expansão que fortalecerá a imagem do Malba como o principal guardião de tesouros da arte latino-americana no mundo. Com o novo acervo, o museu aumenta a sua abrangência geográfica, incluindo artistas de países que não estavam representados anteriormente na coleção, como Costa Rica, Honduras, Jamaica, Panamá e República Dominicana.
A instituição terá agora trabalhos de 75 novos nomes, como o da colombiana Doris Salcedo e o do venezuelano Jesús Rafael Soto. Este último, aliás, ganhará em 2026 uma retrospectiva no Museu de Arte de São Paulo, o Masp, como parte de uma programação centrada na arte latino-americana.
Segundo Costantini, a expansão faz com que o Malba amplie a sua capacidade de visibilizar artistas da região. "Quando compramos um trabalho, sabemos que outros museus importantes começam a prestar atenção nesses artistas, tanto que muitas vezes compram as obras deles."
Foi isso o que aconteceu em 2019, quando o prestigiado MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, comprou a tela "A Lua", de Tarsila do Amaral, nome que o Malba ajudou a divulgar pelo mundo. A transação não teve valores confirmados, mas especialistas dizem que a cifra pode ter chegado a US$ 20 milhões, cerca de R$ 108 milhões. "Hoje em dia, essas obras são mais representadas em instituições centrais do que foram no passado", diz.
Diretor artístico do Malba, Rodrigo Moura afirma que o museu tem um papel importante de educar o público a respeito da arte latino-americana. "O que a aquisição desse novo acervo faz é ampliar isso com obras muito significativas."
São preciosidades como "Relevo Espacial" - uma das famosas esculturas geométricas de Hélio Oiticica - ou como "Objeto Gráfico", trabalho no qual Mira Schendel concebeu aquilo que críticos de arte definem como uma orgia das palavras.
Outra joia do acervo é a instalação "Missão/Missões (Como Construir Catedrais)", em que Cildo Meireles entrelaçou a morbidez e o esplendor em um mesmo ambiente.
Numa estrutura quadrada, centenas de ossos pendem do teto, enquanto milhares de moedas repousam sobre o chão. No centro, o que se destaca é uma torre feita com hóstias empilhadas umas sobre as outras. Em um trabalho tão incisivo quanto sintético, Meireles teceu uma crítica mordaz ao papel da igreja na violência colonial.
"É uma obra importante para a reflexão sobre a América Latina enquanto um lugar de encontro colonial", diz Moura. "Nós temos uma história. Ela pode ter momentos mais ou menos bonitos, mas essa história existe. A obra de Cildo mostra justamente isso."
Esse trabalho é relevante também porque sinaliza uma renovação no Malba, muito conhecido por seu acervo de arte moderna. Após o acordo com a Daros, o museu se firma também como uma potência da arte contemporânea.