Há uma expressão latina que atravessa a história da arte: horror vacui, o horror ao vazio. Utilizada para descrever a tendência de preencher intensamente uma superfície com formas, ornamentos, imagens e cores, ela encontrou no barroco uma de suas manifestações mais reconhecíveis. No Brasil, porém, o barroco foi além da mera adaptação de uma linguagem europeia, tornando-se parte do processo de construção de uma expressão artística própria.
Mário de Andrade percebeu isso cedo. Antes mesmo da Semana de Arte Moderna de 1922, mergulhou na arquitetura, escultura e pintura coloniais e encontrou no barroco, sobretudo em Minas Gerais e na obra de Aleijadinho, sinais de uma criação brasileira que já não poderia ser compreendida apenas como reprodução dos modelos europeus.
Sua investigação sobre o Brasil, entretanto, ultrapassaria o barroco e as cidades históricas mineiras, atravessando o país, registrando músicas, danças, festas, rituais, objetos, costumes, paisagens e formas de expressão que raramente ocupavam o lugar de patrimônio na concepção tradicional da época.
Mário esteve entre os formuladores das bases da política brasileira de preservação do patrimônio, redigindo, em 1936, o anteprojeto que contribuiu para a criação do então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
A Lei nº 378 criou o SPHAN e no mesmo ano, o Museu Nacional de Belas Artes. Instituições nascidas da necessidade de construção de políticas de preservação do patrimônio, da arte e da memória no Brasil.
É curioso que, setenta anos depois da Semana de 22, tenha sido uma Escola de Samba do Rio a produzir uma das sínteses mais felizes dessa trajetória. Em 1992, a Estácio de Sá conquistou seu primeiro campeonato no Grupo Especial com o enredo Paulicéia Desvairada — 70 anos de Modernismo. O samba celebrava os artistas que transformaram os conceitos culturais do país e, ao final, reunia duas dimensões fundamentais daquele projeto modernista: "a beleza do folclore / e a riqueza do barroco nacional".
O verso do samba enredo poderia servir de ponto de partida para uma conversa sobre o Brasil que se realizará, mais de três décadas depois, no Centro do Rio: a Semana de Arte do Rio.
Durante a Semana de Arte do Rio, entre 16 e 27 de setembro, mais de vinte festivais e programações culturais tomarão conta das ruas do Centro. Artes visuais, música, teatro, cinema, literatura, arte pública e outras linguagens ocupam museus, centros culturais, galerias, ruas e edifícios históricos.
A escolha do local não é circunstancial. O Centro do Rio é simultaneamente carioca e nacional. Foi capital do país, guarda instituições que contam a formação do Estado brasileiro e, ao mesmo tempo, permanece atravessado pelo cotidiano da cidade, pelo comércio popular, pelo samba, pelas manifestações religiosas, pela vida da rua e pela diversidade.
E o Museu Nacional de Belas Artes é um dos pontos centrais da programação da Semana de Arte. Há no Museu uma sinergia com o pensamento de Mário de Andrade: reconhecer o Brasil implica olhar além das categorias consagradas e incorporar diferentes territórios, linguagens e sujeitos. É nesse contexto que, no hall do museu, a ideia de horror vacui ganha uma tradução bastante concreta.
No hall de entrada existem duas grandes molduras. Vazias. Durante a Semana de Arte, elas são ocupadas por dois trabalhos realizados diante do público.
Uma delas será preenchida por Isabela Seifarth, artista do Recôncavo Baiano, cuja pesquisa aproxima diretamente a experiência contemporânea da Bahia da tradição barroca brasileira. Isabela observa feiras, bares, festas, casas e barbearias como espaços em que cores, objetos, pessoas, imagens religiosas e elementos cotidianos se acumulam e constroem uma unidade. Em sua obra, essa profusão deixa de ser apenas uma característica formal e se torna uma maneira de pensar o país.
Na segunda moldura do hall, outro mural estabelecerá uma conversa com essa história. O coletivo NEGROMURO realizará uma homenagem a Mário de Andrade.
A aproximação entre os dois trabalhos é intencional.
De um lado, Mário, que percorreu o país tentando compreender as culturas populares, apresentado por um coletivo dedicado a inscrever na paisagem urbana a memória e a presença de personagens negros fundamentais para a história brasileira. De outro, uma artista contemporânea do Recôncavo Baiano que percebe a permanência desses elementos barrocos: da integração natural do hibridismo, do sensorialismo e da dramaticidade desse barroco na experiência cotidiana.
A ação integra o ARUA, festival dedicado à arte urbana que, nesta edição, celebra os quinze anos do ciclo de grandes murais que ajudou a transformar visualmente a Região Portuária do Rio. Herdeiro da experiência do Walls, o ARUA leva agora essa discussão para dentro de uma instituição museológica nacional.
Entre 16 e 24 de setembro, esta reflexão estará presente em escala mural dentro do MNBA. O público não encontrará a obra pronta. Poderá acompanhar o desenho, as primeiras cores, a sobreposição das figuras e o progressivo desaparecimento do vazio delimitado pela moldura.
Todas essas questões e reflexões atravessarão também no restante da programação do museu. A exposição Abolicionistas Brasileiras, do Instituto Artistas Latinas, recuperará a atuação de mulheres artistas; O Futuro da Memória apresentará novas aquisições incorporadas ao acervo do MNBA; e, na calçada do museu, em frente a fachada principal, a realização de uma intervenção artística nos tapumes temporários que delimitam o canteiro de obras do MNBA, por meio do Inside Out Project, projeto internacional de arte pública criado pelo artista JR, em colaboração com o Frequências Urbanas, a Casa Amarela e artistas da cena urbana carioca.
Há uma coerência entre essas ações. Um museu nacional não existe apenas para conservar o que o passado já consagrou. Sua responsabilidade também envolve rever ausências, incorporar novos artistas, estabelecer relações com a produção de seu tempo e ampliar o conjunto de pessoas que se reconhecem na história que ele conta.
Por isso a imagem das duas molduras vazias é tão sugestiva: uma obra aberta.
Ao longo da Semana, é possível acompanhar aquilo que o Brasil decidirá colocar dentro deles.
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