Sábado à noite, Maracanã. O gol de Lucho Acosta ainda não tinha saído - viria no segundo tempo, para dar ao Fluminense o 1 a 0 sobre o Vasco -, e a câmera da TV, que vive garimpando rosto bonito na arquibancada, achou coisa melhor. Achou um casal.
Ele de tricolor, ela de cruzmaltino. Ele provocava, ela ria e devolvia na mesma moeda. Não sei o nome dos dois e nunca vou saber. Em três segundos de close estava ali a coisa mais bonita que esta cidade produz e teima em não enxergar.
Porque aquilo é raro. Raríssimo.
O Rio é a única cidade do Brasil com quatro clubes grandes. Porto Alegre tem dois. Belo Horizonte tem dois. São Paulo, capital econômica do país, tem três; o quarto grande do estado mora em Santos, a setenta quilômetros da capital. Aqui são quatro, dentro do mesmo mapa, dividindo o mesmo engarrafamento e, durante décadas, o mesmo endereço nos dias de jogo.
Mundo afora também não sobram exemplos. Buenos Aires tem mais clubes que nós, é verdade. Mas passou doze anos sem torcida visitante nos estádios, e a volta vem sendo feita a conta-gotas, jogo-teste por jogo-teste. O portenho aprendeu a ir à cancha só entre iguais. Nós, não.
Não vou bancar o ingênuo. Tivemos violência, e muita. Houve época em que subir a rampa do Maraca pedia coragem. O que veio depois foi trabalho duro e nada romântico: portões separados, câmeras, biometria, policiamento especializado, setor próprio para o visitante. Não ficou perfeito. Ficou bom.
O que restou de bárbaro mudou de endereço. As brigas que às vezes ainda envergonham o futebol carioca são combinadas por aplicativo, em estrada, em rua vazia, longe de câmera e longe de criança. É covardia com hora marcada e não tem nada a ver com arquibancada. No Maracanã e no seu entorno, em regra, os dias transcorrem em paz.
O resultado está à vista de quem quiser ver: mulher, criança, idoso, família inteira dividindo espaço num clássico. Isso não caiu do céu.
E não foi coincidência que, poucas horas antes de Fluminense e Vasco, o Ministério Público lançasse no próprio Maracanã o "Pacto das Torcidas", reunindo as organizadas dos quatro grandes. Antes da bola rolar, representantes de tricolores e cruzmaltinos entraram juntos no gramado com a faixa da campanha. O recado cabe numa linha: respeito garante nosso lugar na arquibancada. A rivalidade é do jogo. A violência, não.
Há nisso algo profundamente carioca. O sujeito daqui xinga o juiz, promete o inferno ao rival, e no fim do segundo tempo está dividindo a saideira com o inimigo num boteco da Radial Oeste. A cidade que inventou a praia sem cerca inventou também a arquibancada sem muro moral. Rivalidade nossa tem prazo de validade: noventa minutos, mais acréscimos.
Vale lembrar que o estádio se chama Jornalista Mário Filho. Foi ele quem transformou o clássico carioca em festa popular, quem entendeu antes de todo mundo que o futebol aqui não era só resultado, era convivência. E o Maracanã é amado como é porque quatro clubes escreveram sua história ali dentro. Quatro, não dois.
Faz tempo, porém, que o Maracanã virou casa da dupla Fla-Flu. Não por golpe: o consórcio dos dois venceu a licitação e assinou concessão de vinte anos com o governo do estado - e o Vasco, que disputou aquele edital ao lado da WTorre, ficou pelo caminho. Está tudo dentro da lei.
Só que contrato não esgota o assunto. Escrevo isto como flamenguista, e peço à concessionária e ao governo do estado que revejam a possibilidade de Vasco e Botafogo voltarem a pisar mais no Maracanã. Sei que exige planejamento e antecedência, que o calendário brasileiro é um monstro e que datas se atropelam. Mas vascaínos e botafoguenses vêm perdendo o elo com o estádio. E isso é prejuízo da cidade inteira, não só deles.
Um estádio onde um namorado tricolor pode provocar a namorada vascaína por noventa minutos, e os dois voltarem pra casa juntos, é patrimônio.
Cuidemos dele. Valorizemos isso.
Menu