A cada 30 dias, sirvo-me desta coluna para, na última semana do mês, deixar uma reflexão despretensiosa sobre a ideia que se movimenta entre os extremos, estando, portanto, no "meio", na "fronteira", no "limiar", enfim, a ideia do "entre" signos opostos.
No último 9 de maio, a imprensa publicou uma versão da morte do ex-presidente Juscelino Kubistcheck: o perito contratado pelo MPF contestou análises anteriores e rejeitou a hipótese de que o acidente tenha sido provocado por uma colisão entre o Chevrolet Opala de JK e um ônibus antes de o veículo se chocar contra uma carreta.
JK morre em 22 de agosto de 1973 por causa de um acidente na Rodovia Presidente Dutra, em Resende, Rio de Janeiro. Sabe-se que pessoas contra a ditadura eram mortas quando dirigiam seus veículos em estradas, ficando a imagem de um "típico acidente de trânsito".
Esse "típico acidente" ocorreu com Zuzu Angel em 14 de abril de 1976, quando seu veículo foi empurrado contra a proteção de um viaduto na saída do hoje Túnel Zuzu Angel, caindo de um barranco na Autoestrada Lagoa-Barra.
Assassinar de forma a permanecer a imagem de que não houve assassino. Ora, sob a ditadura, podia-se muito bem seguir o inimigo, capturar, matá-lo num lugar ermo e deixar o corpo onde os tiros foram dados. Mas não. A ditadura executou Zuzu num teatro, ou seja, "o-que-é-não-é".
Defende-se que JK morreu no mesmo teatro, cuja peça chamou-se "Típico Acidente de Trânsito", onde o corpo do protagonista, assassinado, é deixado "entre" signos contrários: "o-que-é-e-o-que-não-é", em outros termos, "foram-militares-e-não-foram-militares". O "entre" é esse espaço de exceção em que a identidade do assassino de JK está suspensa há quase 50 anos.
Mata-se sem saber quem foi; mas, sem ser verdade, divulga-se quem foi. O filme "O Agente Secreto" projeta imagens de uma Recife que mata e, o que é pior, quem mata é sempre o outro, um anônimo, divulgado por uma imprensa que acredita saber quem é. Não sabe. A verdade, porém, é o que está propagado pelo jornal, pela TV e pela rádio sobre a morte do professor Armando.
Quando digo que JK foi jogado ao teatro, afirmo que a ditadura cívico-militar se manteve no poder por meio do simulacro, diga-se, a identidade é apenas simulado, isto é, aquilo que "não-é" passa a "ser". Em Simulacros e simulação (p. 7), Baudrillard escreve: "o simulacro nunca é o que oculta a verdade - é a verdade que oculta que não existe. O simulacro é verdadeiro".
Ora, a simulação é a potência do "entre" - paradoxo.