Não tem muito jeito: de vez em quando o assunto volta, bate à porta e se reinstala - o carnaval, esse velho conhecido que, no fundo, é só outro nome para a própria história do Rio. E foi assim que, na semana passada, a União da Ilha do Governador anunciou seu enredo para 2027 e puxou um fio que merece ser seguido com calma: a vida de Getúlio Marinho da Silva, popularmente conhecido como Amor.
Mas, afinal, quem foi Getúlio? A resposta não cabe em uma linha - nem deveria. Baiano, nascido no dia da Proclamação da República, veio menino pro Rio e, nos anos 30, virou um desses sujeitos que parecem viver várias vidas ao mesmo tempo: compositor, mestre-sala, fomentador dos ranchos carnavalescos, dirigente. Um multiartista num tempo em que a palavra ainda nem estava na moda. Só isso já bastaria para garantir seu lugar na memória da cidade. Mas Getúlio foi além.
Num Brasil ainda marcado por forte intolerância religiosa, ele teve a ousadia de levar para os discos um universo que, até então, vivia à margem: a macumba. Ao lado de Mano Elói - que mais tarde ajudaria a fundar o Império Serrano -, Getúlio rompeu resistências e abriu caminho para que aqueles sons, aqueles ritos e aquela estética atravessassem o filtro da indústria fonográfica. Não era pouca coisa. Era, na prática, dar voz pública a uma expressão cultural historicamente silenciada.
E esse gesto teve desdobramentos. Esse movimento ajudou não só a popularizar práticas religiosas como também, como diz o historiador Luiz Antônio Simas, a moldar a própria identidade da macumba carioca - em especial a chamada umbanda omolocô, profundamente enraizada na experiência urbana do Rio. Em outras palavras, Getúlio não apenas registrou um som: ele ajudou a consolidar uma cultura.
Sua trajetória ainda passa pelos ranchos - que, antes da consolidação das escolas de samba, eram protagonistas da festa - e segue até a organização institucional do carnaval. Getúlio esteve entre os fundadores da primeira entidade que buscou estruturar os desfiles - a União das Escolas de Samba -, num tempo em que tudo ainda era construção, tentativa, improviso. O carnaval que a gente conhece hoje deve muito a esse tipo de gente.
E há, nessa história toda, um detalhe que toca o coração deste colunista: o enredo da Ilha se apoia no livro da historiadora Fernanda Soares - que, com orgulho, é da minha família. É minha prima.
Ver esse trabalho ganhar a avenida, ganhar o brilho da Marquês de Sapucaí e alcançar o Brasil inteiro é mais do que uma homenagem: é uma espécie de reencontro. Ainda mais quando lembro que nossas raízes também passam pela Ilha do Governador, como se o tempo tivesse dado um jeito de amarrar tudo.
No fim das contas, o desfile de 2027 não é só sobre lembrar Getúlio Marinho. É sobre corrigir um silêncio. Num período em que tantos nomes explodiram em talento e ficaram marcados, o dele acabou meio encoberto. Resgatar sua história - seja pelas páginas de um livro, como fez Fernanda, seja pelo espetáculo da avenida - é devolver ao Rio um pedaço de si mesmo.
E isso, convenhamos, também é carnaval. É quando o carnaval faz justiça à sua gente.