Na semana passada, a gente perdeu o cronista, publicitário e produtor audiovisual Arthur Muhlenberg. E, olha, não foi qualquer perda. Foi daquelas que fazem um silêncio danado no bar, na arquibancada, na resenha. Porque Arthur, antes de tudo, era a tradução viva do espírito carioca: bon vivant, malandro no melhor sentido, ligeiro de pensamento, dono de tiradas que vinham como um drible curto, seco e desconcertante. Um cara que entendia a vida como poucos e escrevia como quem conversasse contigo na mesa de um botequim.
Pra quem ainda não se deu conta do tamanho da ausência, vale dizer sem medo de exagero: foi um dos maiores cronistas rubro-negros da história. Daqueles que dá pra colocar na mesma prateleira dos gigantes como, por exemplo, Mário Filho e José Lins do Rêgo. Arthur foi, acima de tudo, o grande cronista da era digital, num tempo em que muita gente se desapegou da leitura, ele fazia a turma abrir exceção. Quando era texto dele, nego rapaziada parava. E parava porque ali tinha verdade. Tinha alma. Tinha Flamengo pulsando em cada linha.
Arthur encarnava como poucos o espírito do torcedor rubro-negro: irreverente, provocador, metido a besta na medida certa - porque ser Flamengo também é isso - mas sempre com um respeito raro pelas outras torcidas. E talvez por isso tenha conquistado algo que não se compra: admiração até de quem estava do outro lado. Não foi por acaso que, no meio de um mar vermelho e preto no velório, surgiu uma camisa do Vasco. Um símbolo silencioso de que, quando a alma do texto é grande, ela ultrapassa qualquer rivalidade.
Ao longo de mais de duas décadas, Muhlenberg não só escreveu sobre o Flamengo. Ele ajudou a moldar o que é ser Flamengo. Seus textos não eram só relatos ou opiniões, eram quase manuais de comportamento, crônicas que ensinavam a olhar o clube com orgulho, irreverência e pertencimento. Formou uma geração inteira de rubro-negros que aprenderam com ele que torcer também é um ato de identidade.
E fazia isso porque era um cronista das ruas. Arthur não escrevia de longe, do escritório. Ele estava no meio do povo, sentindo o calor, ouvindo a resenha, vivendo o que depois virava texto. Era ali, na mistura, que ele captava a essência pra devolver em forma de crônica.
Na minha vida, fica também a marca do amigo. Sempre generoso, sempre disposto a somar. Em várias das suas produções, fazia questão de me colocar junto, e isso diz muito sobre quem ele era.
A gente dividia, além do Flamengo, o amor pelo samba. E talvez não exista combinação mais perfeita pra explicar o Arthur: um texto com cadência de tamborim e alma de arquibancada.
Ele mesmo resumiu, como ninguém, o que é tudo isso: "A principal função social do Clube de Regatas do Flamengo é deixar puto todo mundo que não é Flamengo." E ele dizia isso rindo, com aquela ironia fina de quem sabia que, no fundo, estava falando de algo muito maior: identidade, pertencimento e paixão.
Arthur Muhlenberg se foi, mas deixou algo que não acaba: um legado vivo, pulsante, espalhado em cada rubro-negro que aprendeu com ele a sentir o Flamengo de um jeito diferente. E também deixou amor - muito amor. Não à toa, se apresentava como Arturzão Love. Era isso. Um cronista gigante, com coração do tamanho da arquibancada.
Fica aqui o nosso beijo, Arturzão.
E obrigado por tudo.