Por: Fred Soares (@fredaosoares)

Só Carioquices: Rio: sol, mar, samba e… cemitério

O velório de Arlindo Cruz, invariavelmente, acabou em samba | Foto: Reprodução TV

Vou te dizer uma coisa: o sujeito que acha que o Rio de Janeiro é só praia, pôr do sol e água de coco nunca foi a um cemitério na Zona Norte num dia movimentado. Porque ali, meu amigo, a vida - sim, a vida - insiste em dar expediente até quando o assunto é morte.

Tem um jeito carioca de se despedir que não cabe muito bem no manual europeu de compostura. Aqui, dependendo de quem parte, o enterro vira roda. Não de desrespeito, não - de presença. De gente que chega pra dizer: "tô aqui ainda, e você continua aqui com a gente também". Aí aparece um pandeiro tímido, alguém puxa um refrão, e quando você vê já tem mais harmonia do que muito bar da Lapa.

Quando se foi Arlindo Cruz, por exemplo, aquilo ali foi quase uma aula pública de como o subúrbio elabora a saudade. Na quadra do Império Serrano, foram horas e horas de samba. Mas não era festa no sentido raso da palavra - era outra coisa. Era como se dissessem: "o corpo até vai, mas o enredo fica".

E, claro, o cemitério também é esse território meio atravessado por histórias que ninguém sabe se aconteceram mesmo ou se foram sopradas por algum espírito brincalhão. Porque tem coisa que só faz sentido ali, entre um choro e outro, quando o mundo dá uma leve desalinhada.

Outro dia me contaram uma dessas. E eu já aviso: não sei se é verdade. Mas também não tenho o menor interesse em checar de tão boa que a história é.

Dizem que foi lá pelos lados de Jacarepaguá, no Pechincha. Velório de um senhor muito querido, daqueles que juntam gente de tudo quanto é canto: família, vizinho, compadre, gente que nem lembrava direito de onde conhecia, mas foi assim mesmo.

Clima respeitoso, oração, aquele silêncio cheio de significado. Até que alguém nota, na capela ao lado, um caixão pequeno. Pequeno mesmo. E vazio de gente. Nenhuma vela, nenhuma flor, nenhum olhar. Um abandono que incomoda até quem não tem nada com aquilo.

Uma senhora, dessas que ainda acreditam que rezar nunca é perda de tempo, resolve atravessar. Leva umas velas, ajeita umas flores, faz o sinal da cruz e começa ali sua conversa com o invisível. Baixinho, concentrada, como quem tenta corrigir uma injustiça.

E aí entra o elemento que só o Rio produz com essa naturalidade desconcertante: o funcionário do cemitério, chegando de lado, quase pedindo licença pra realidade.

— Dona, a senhora sabe o que tem aí dentro?

Ela, ainda em oração, responde que imagina ser uma criança, coitada, sozinha no mundo. O homem coça a cabeça, dá aquela pausa dramática involuntária e solta: — É uma perna. Uma perna!

A senhora para, respira, processa, e reage com a sinceridade que só os grandes momentos arrancam: — Mas eu tô gastando meus guias e minha reza com uma perna?!

E veja, não era exatamente um engano. A perna era de alguém vivo, vítima de um acidente, mas que, por essas exigências que ninguém explica direito, precisava ser enterrada com toda a formalidade. Caixão, vela, silêncio. Só faltou a biografia.

E eu fico pensando que talvez seja isso. No Rio de Janeiro, até a perna ganha despedida e o morto vira motivo de encontro. Não por leviandade, mas porque a gente aprendeu a lidar com a ausência do único jeito que dá: enchendo o momento de festa.

No fim das contas, o cemitério carioca não é só lugar de fim. É também esse espaço meio torto, meio bonito, onde a vida insiste em fazer comentário — às vezes baixo, às vezes atravessado, às vezes gargalhado. Às vezes em ritmo de samba regado a muita cerveja.

E, sinceramente, ainda bem. Porque se nem ali a gente puder rir um pouco, aí sim fica difícil de levar o que ainda resta da vida.