Às vésperas de mais uma Copa do Mundo, o Rio de Janeiro parece não perceber. Quem caminha por suas ruas já não encontra o que, por décadas, foi o mais fiel anúncio de que o futebol estava prestes a tomar conta do país: ruas enfeitadas, muros pintados, bandeirinhas cruzando o céu. Era ali, muito antes da bola rolar, que a Copa começava de verdade - não nos estádios, mas no coração das ruas.
Havia uma liturgia, quase sagrada. Dois meses antes, começavam os preparativos. A vaquinha passava de porta em porta, cada um contribuindo como podia - um trocado, um rolo de tinta, um pedaço de plástico. Não era sobre dinheiro. Era sobre pertencimento. Sobre fazer parte de algo maior do que o jogo, maior até do que a própria cidade, pois ali havia alma.
Na minha memória, esse altar popular se erguia na rua Edmundo Lins, em Copacabana, paralela à Barata Ribeiro, onde cresci. Eu tinha sete anos - idade em que o mundo ainda cabe inteiro dentro de um coração pequeno. E ali, naquele pedaço de rua, o mundo era a Copa.
Lembro das madrugadas acesas. Homens equilibrados em escadas, esticando fios e bandeiras. O cheiro do churrasquinho subindo junto com a fumaça das conversas. As latinhas tilintando discretamente nas mãos dos mais velhos. E nós, crianças, com a missão mais importante de todas: sonhar. Sonhar com gols, com vitórias, com heróis que ainda nem sabíamos o nome, mas que já habitavam a nossa imaginação. Era uma festa sem convite, sem camarote, sem patrocínio. Uma festa de gente. Gente que pintava o próprio chão para receber a seleção, como quem estende um tapete simples, mas carregado de orgulho.
Houve um tempo em que até a Prefeitura entendia essa poesia e promovia concursos para premiar as ruas mais bonitas. Mas a verdadeira premiação estava ali mesmo: no sorriso coletivo, na obra pronta, na sensação de que aquele pedaço da cidade agora era um estádio a céu aberto, pulsando em uníssono.
Outro dia, vi um comercial na televisão. Nele, imagens da rua Alzira Brandão, na Tijuca - berço da lendária Turma do Alzirão, desde 1978, um símbolo máximo dessa tradição. Entre 78 e 2018, aquele endereço foi sinônimo de Copa. Ainda que, nos últimos anos, tenha flertado com uma certa "gourmetização", nunca perdeu por completo a alma. Porque a alma, essa, não se compra. Se constrói, dia após dia, no encontro das pessoas.
Mas hoje… hoje a cidade parece distraída. As ruas, nuas. Os muros, silenciosos. Nenhuma bandeira tremulando para anunciar o que se aproxima. Como se a Copa tivesse deixado de ser nossa - ou pior, como se nós tivéssemos deixado de ser dela.
E talvez ainda dê tempo de lembrar. Basta que alguém, em alguma rua esquecida, decida esticar o primeiro barbante, misturar a primeira tinta, reunir os vizinhos outra vez. Porque a Copa não começa no estádio - começa no gesto simples de um povo que escolhe celebrar junto. E, quando esse gesto renasce, ainda que tímido, ele reacende algo antigo e bonito: a certeza de que o Rio, quando quer, transforma qualquer rua em festa. E qualquer festa em memória eterna.