No dia em que a República Democrática do Congo estrear na Copa do Mundo, contra Portugal (olha que saborosa ironia do destino!) tem uma cidade que vai vibrar junto com todas as do país da África: o Rio de Janeiro.
E mais especificamente, tem um pedacinho do Rio onde o jogo começa antes do apito inicial. Fica no Centro velho, perto de onde tantos africanos foram despejados como mercadoria no Período Colonial. Num salão pequeno, desses que sobrevivem entre o barulho da cidade e o silêncio das histórias. É o salão e barbearia do Dadá. Ou melhor, de Nsuka Kaluba.
Congolês de nascimento, carioca por insistência da vida. Há mais de 20 anos no Rio, Kaluba aprendeu o essencial: ficar também é um ato de coragem. Mas essa história não começa nele. Começa muito antes.
Começa numa tragédia. O Rio de Janeiro foi o maior porto de desembarque de africanos escravizados do mundo. Ali, na região do Valongo, cerca de um milhão de pessoas foram arrancadas de suas terras e trazidas à força, muitas delas vindas da região do Congo e de Angola.
E há um detalhe que atravessa o tempo como um corte aberto: estima-se que, apenas nos últimos 25 anos do tráfico, entre 1817 e 1850, algo entre 200 mil e 600 mil pessoas tenham sido sequestradas da região do baixo Congo e enviadas ao Brasil. Os dados são da pesquisa "Para além do Congo - seguindo a origem linguística das origens de escravos que deixaram Angola entre 1811-1848".
A África passou por aqui em correntes. Inclusive o Congo. E ficou.
Por isso, o Rio nunca foi só paisagem. O Rio sempre foi memória viva - África reinventada em batuque, fé e sobrevivência. O que hoje chamamos de cidade nasceu também desse encontro violento. E talvez por isso o reencontro seja tão forte.
Hoje, cerca de 5 mil congoleses vivem no Rio de Janeiro. Chegaram por outros caminhos - guerras, conflitos, deslocamentos - mas carregam a mesma travessia de quem precisou partir sem garantia de volta. E aqui reinventam a vida. Alguns descobrem, com espanto, o racismo que não conheciam. Outros enfrentam o recomeço duro, o diploma que não vale, a língua que tropeça. Ainda assim, ficam. Porque o Rio tem esse mistério. Ele fere. Mas também incorpora.
Em bairros da Zona Norte, o Congo reaparece em festas, sabores, saberes, línguas e rituais. E no salão de Kaluba, no Centro, ele ganha forma cotidiana. Ali não se corta só cabelo e se faz a barba. Costura-se o destino. Kaluba ensinou o ofício a outros congoleses, criando uma pequena rede de futuro possível. Um saber que passa de mão em mão.
E talvez seja por isso que, quando a bola rolar, não seja só futebol. Vai ter memória ancestral em campo. Vai ter História. Passada e viva. Vai ter um Rio antigo, feito de dor, olhando para um Rio presente, feito de resistência. E, entre um corte e outro, alguém vai gritar gol diante do espelho. Não só pelo Congo. Mas por tudo e todos que sobreviveram até aqui.