Há fundações que se anunciam em ata. Outras, em levante. O Império Serrano nasceu assim: não como convite, mas como resposta. Em 1947, na Serrinha, um grupo de homens - e, sobretudo, uma mulher, Eulália Nascimento, a Tia Eulália - decidiu que já não carregaria o peso do desmando. Eram estivadores, em sua maioria, gente do cais, vinculada ao Sindicato dos Arrumadores do Porto - homens que sabiam organizar cargas, mas, sobretudo, sabiam perceber quando a balança estava injusta.
Até então, muitos deles desfilavam pelo Prazer da Serrinha, fundado em 1930. Mas o samba, ali, já não era o mesmo. Não por falta de talento - este sobrava -, mas por falta de rumo. E quando o rumo falta, o povo cria caminho.
A dissidência não foi um capricho. Foi um gesto político, ainda que embalado em tamborim. Nomes como Silas de Oliveira, Eloi Antero Dias, Sebastião Molequinho e Mestre Fuleiro entenderam que não bastava desfilar - era preciso agir. E assim, entre a poeira da Serrinha e a dignidade ferida, fundaram um império que não tinha coroa sobre a cabeça de ninguém, mas tinha consciência.
Havia ali uma inversão bonita: homens do porto, acostumados a ver navios partirem, decidiram ancorar uma ideia. Transformaram o ritmo em linguagem, o desfile em narrativa, o samba em instrumento de memória. O Império Serrano não queria apenas vencer carnavais - queria contar histórias que o Brasil esquecia de contar. E contou.
Depois de um tempo seguindo a cartilha chapa-branca que dominava o carnaval carioca, a verde e branco passou a investir em enredos que falaram de heróis populares, de episódios negligenciados, de um país que se constrói longe dos palácios. Na avenida, o Império não pedia licença: ensinava. Mostrava que o samba pode ser também pensamento - crítico, elegante, necessário.
Talvez por isso sua trajetória seja feita de ciclos, como a própria história social que o gerou. Porque quem nasce de uma ruptura carrega consigo a inquietação permanente. O Império nunca foi escola de acomodação. Foi escola de identidade.
Agora, aos 79 anos, comemorados na última segunda-feira, já atravessando o limiar simbólico de seus 80, o Império Serrano celebra mais do que o tempo - celebra o gesto que o originou. A coragem de romper para existir. A lucidez de transformar indignação em beleza.
Na Serrinha, o tambor ainda bate como quem lembra: há quase oito décadas, um grupo de estivadores decidiu que também podia reger o próprio destino. E fez do samba não apenas festa, mas afirmação.
Um império não precisa necessariamente de um rei. Precisa de povo, propósito e memória. E isso o Império Serrano sempre teve de sobra.