Por: só carioquices

Só Carioquices: Um fantasma que circula livremente

João Francisco dos santos, o Madame Satã | Foto: Reprodução

Em 12 de abril, faz cinquenta anos que João Francisco dos Santos morreu. Cinquenta anos desde que o corpo ficou na Ilha Grande e o resto - a lenda, o escândalo, a má reputação - se recusou a acompanhar. O Rio de Janeiro é especialista nisso: enterrar pessoas e manter os fantasmas circulando livremente pela cidade. João nasceu em Pernambuco, como manda o registro e a geografia. Madame Satã, não.

Madame Satã nasceu na Lapa, parido pela noite, pelo excesso, pela necessidade de sobreviver num lugar onde a polícia confundia ordem com pancada e moral com conveniência. Satã não foi invenção artística nem personagem folclórico: foi resposta. Um corpo em permanente estado de defesa.

Negro, pobre, homossexual, transformista, boêmio e brigão - tudo ao mesmo tempo, num Brasil que mal tolerava uma dessas condições isoladamente. Madame Satã foi a soma do que não devia existir. Por isso apanhou, foi preso, voltou a apanhar, voltou a ser preso. A ficha criminal virou currículo involuntário. A marginalidade, endereço fixo.

Antes que a palavra "diversidade" fosse descoberta por publicitários, Satã já pagava caro por ela. Antes que existisse qualquer ideia de orgulho, ele já sobrevivia na base da coragem bruta. Talvez por isso tenha sido, sem discurso e sem militância organizada, o primeiro grande ícone gay do Brasil urbano. Não por escolha estética, mas por insistência vital.

Cinco décadas depois de sua morte, o país resolveu se mexer. Um pesquisador da UFRJ, Baltazar de Almeida, propôs que o túmulo de Madame Satã seja reconhecido como patrimônio cultural imaterial LGBTQIA . É bonito. É simbólico. E é profundamente irônico. O mesmo Estado que perseguiu João Francisco em vida agora cogita protegê-lo depois de morto. Com processo. Com carimbo.

Madame Satã, patrimônio. O homem que nunca coube em cela, em norma ou em bom comportamento agora precisa caber num parecer técnico. O Brasil tenta, atrasado como sempre, transformar rebeldia em memória administrável.

Mas Satã não foi feito para virar placa. Foi feito para circular.

Para incomodar. Para lembrar que o Rio de Janeiro não nasceu da ordem, mas da desordem organizada; não da virtude, mas da sobrevivência. Seu legado não está apenas numa sepultura da Ilha Grande, mas em cada esquina onde a hipocrisia ainda finge susto diante da diferença.

Cinquenta anos depois, Madame Satã segue vivo exatamente porque nunca foi aceitável por quem faz as normas. E talvez essa seja sua maior herança: provar que algumas figuras não existem para serem celebradas em silêncio, mas para continuar fazendo barulho - mesmo depois de mortas.