O Carnaval é esse momento em que a cidade sonha acordada. A ordem cochila, a pressa desacelera, e o Rio - essa invenção improvável entre o morro e o asfalto - lembra quem ele é. Em 2026, o sonho tem nome civil e nome encantado: Moacyr da Silva Pinto, o Mestre Ciça. Um homem comum coroado pelo extraordinário.
Ciça rege o tempo. Sempre regeu. Aprendeu cedo que o samba não é barulho, é a organização do caos. Em 2026, viverá um milagre raro: será, ao mesmo tempo, o maestro e o tema, o trabalhador e o verso, o corpo suado e o mito cantado. Diretor de bateria da Unidos do Viradouro, ele conduzirá o desfile que conta a sua própria história. Vai determinar o ritmo do samba que o nomeia. Um rei em ofício.
A antropologia explica: o carnaval é o grande ritual de inversão. Durante alguns dias, a cidade suspende suas hierarquias rígidas e permite que o povo experimente o poder simbólico. O gari vira príncipe, a passista vira rainha, o batuqueiro vira maestro. Ciça é a confirmação dessa regra ancestral. Um homem comum elevado ao trono sem precisar abandonar a própria humanidade.
Reis surgem do chão, não do palácio. Coroas nascem do povo, não do ouro. Vindo do Morro de São Carlos - como quase todos os morros do Rio, território historicamente esquecido pelo poder público - Moacir carrega no corpo a geografia da desigualdade brasileira. Mas o Carnaval opera sua alquimia particular: não apaga a origem, transforma-a em força. Não disfarça a favela; a consagra. O que era margem vira centro. O que era silêncio vira ritmo.
O carnaval não apaga a desigualdade; ele a desafia. Por alguns dias, a cidade aceita que o centro se desloque, que a margem governe o ritmo. Ciça é a prova viva dessa alquimia. Não virou rei apesar de sua origem, mas por causa dela. O morro não o limita - o consagra.
Seu trono não é fixo. Desfila. Seu cetro não reluz. Apita. Sua autoridade não grita. Silencia - e o silêncio obedece. Há mestres que comandam pelo volume; Ciça governa pelo ouvido.
Cada gesto seu organiza dezenas de batidas e milhares de passos. É poder que não oprime: orienta.
Fala-se muito em celebridade, palavra gasta, vazia, plastificada. Aqui ela recupera densidade. Ciça é celebridade porque sua presença altera o ambiente. Porque sua história importa para a cidade. Porque sua arte cria comunidade. Celebridade do samba, das escolas, do carnaval. Celebridade do Rio que a gente aprendeu a amar - o Rio da rua, da sociabilidade improvisada, do encontro nas esquinas, vielas e morros.
Enquanto muitos só são celebrados depois do silêncio final - como aconteceu com o genial Mestre Laila -, Ciça vive a rara experiência de ser coroado em movimento. Homem e símbolo dividindo o mesmo compasso. Carne e mito respirando juntos.
Quando a Viradouro entrar na avenida, não será apenas um desfile. Será um rito antigo como a cidade. O povo reconhecendo um dos seus. O carnaval cumprindo sua promessa mais bonita: transformar Moacyr, o carioca, em rei - sem que ele precise deixar de ser gente. E de ser um da gente.