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Quando a MPB respirou liberdade

Affonso Nunes

Apergunta que abre o livro "1985 - O ano que repaginou a música brasileira" vai direto ao ponto: onde você estava naquele ano? Para quem viveu aquele período, a memória pode trazer de volta não apenas canções, mas toda uma atmosfera de mudança de ares, ares de democracia após 21 anos de ditadura militar. Organizada por Célio Albuquerque e com prefácio do jornalista Zé Emilio Rondeau, o livro lançado pela Garota FM Books destrincha um dos períodos mais férteis da música brasileira ao longo dos artigos espalhados por suas 432 páginas.

São textos sobre 85 discos nacionais produzidos em 1985, escritos por jornalistas especializados, pesquisadores musicais e pelos próprios artistas que estiveram à frente daquelas criações. O livro traz ainda verbetes com mais de 50 outros álbuns comentados, um capítulo sobre os compactos - os singles daquela época - e quatro artigos sobre política, sociedade e Rock In Rio. Segundo Célio Albuquerque, a importância de analisar esses discos está na compreensão das mudanças estéticas e políticas da época.

'Novos dias felizes'

"Depois da potente campanha das Diretas, que nos fez desembocar no primeiro presidente civil, primeiro Tancredo, nosso presidente "Roque Santeiro", que foi sem nunca ter sido, depois José Sarney, o país sabia o que queria. Como cantou Cazuza no primeiro Rock in Rio, "Pro Dia Nascer Feliz" (Roberto Frejat / Cazuza ), a gente queria é novos dias felizes", destaca Célio Albuquerque. "Teclados e baterias eletrônicas estavam em quase todos os álbuns, independente do estilo. Mas, isso não apagou ninguém. E havia espaço para de tudo um pouco, inclusive muito Tom Jobim, no álbum em homenagem a Fernando Pessoa e a trilha sonora de O tempo e o vento.

Um dos álbuns mais populares e politicamente engajados foi o primeiro do Ultraje a Rigor, com Inútil ( Roger Moreira) como destaque. No livro o texto é do Luiz André Alzer, junto com Mariana Claudino", acrescenta.

O contexto político é fundamental para entender 1985. Após mais de duas décadas de regime militar, o Brasil vivia os primeiros momentos de uma abertura democrática ainda incerta.

O rock brasileiro explodiu definitivamente em 1985. O BRock encontrou seu momento de consolidação, com bandas finalmente conseguindo espaço nas grandes gravadoras e nas rádios. O Rock In Rio, realizado em janeiro, foi o epicentro dessa explosão. Durante dez dias, o festival reuniu artistas nacionais e internacionais e mostrou ao mundo que o Brasil tinha uma cena roqueira vigorosa e original.

A MPB tradicional continuava produzindo obras relevantes, agora com a liberdade de abordar temas que antes eram vetados pela censura. Artistas que haviam sido perseguidos ou exilados durante a ditadura voltavam a gravar com regularidade. Compositores podiam finalmente falar de forma direta sobre política, desigualdade social e liberdade. Havia um desejo de experimentação, de buscar novos caminhos, de dialogar com influências internacionais sem perder a identidade brasileira.

A explosão dos
ritmos regionais

A música regional também viveu um momento especial em 1985. A axé music irrompeu em Salvador justamente naquele ano. Artistas do Nordeste, do Sul, do Centro-Oeste encontraram espaço para mostrar suas produções para um público mais amplo, rompendo o monopólio do eixo Rio-São Paulo. Os ritmos regionais ganhavam novos arranjos, dialogavam com a música pop, criavam fusões inusitadas.

Entre os artistas que contribuíram com textos sobre seus próprios trabalhos estão Guilherme Arantes, Leo Jaime, Charles Gavin (dos Titãs), Daniel, Leoni e outros. "Daniel e Guilherme Arantes foram dois artistas que ficaram um pouco reticentes nos primeiros contatos. Entretanto, quando Daniel caiu no texto foi uma verdadeira viagem as suas origens e seu primeiro mergulho no mercado fonográfico, ao lado do parceiro João Paulo. Guilherme demorou um pouco mais. Porém, quando acordou para seu 'Despertar' (o nome do álbum) fluiu muito. 'Cheia de Charme', que está no disco, seria uma parceria com Nelson Motta. Mas, esse demorou para entregar a letra. Com cronograma de gravação em cima, Guilherme deixou fluir um novo hit... com todo charme possível", conta o organizador.

Jornalistas como Hugo Sukman, Silvio Essinger, Luiz Thunderbird, Kamille Viola e Chris Fuscaldo, o historiador Luiz Antonio Simas e o DJ Zé Pedro assinam textos sobre lançamentos que mostram a pluralidade daquele ano. São 89 autores que escrevem sobre um mercado fonográfico em ebulição.

Questionado sobre um álbum desta safra 1985 que não tenha alcançado grande reconhecimento, Célio responde: "Sempre há álbuns que acabam sendo injustiçados. Entretanto, dos que estão no livro me chama atenção o 'Estória de João-Joana', de Sérgio Ricardo, um cordel de Carlos Drummond de Andrade que serviu como trilha de ballet. Vai muito além do cordel e mostra a grandeza de Sérgio como compositor, sem contar que tem arranjos de Radamés Gnatali. O álbum ganhou texto do letrista e professor de literatura Fred Góes. Um disco, produção independente, com um apuro gráfico em sua capa, que até recentemente consegui comprar por preços justos, na Feira da Praça XV. O álbum está nas plataformas. Mas, o ideal é ouvir acompanhando a "letra/poema". O disco "Cristina Buarque e Mauro Duarte", com texto assinado por João Pimentel, também é um primor.

O livro dá continuidade ao trabalho iniciado por Célio com "1973 - O ano que reinventou a MPB" (2014) e expandido com "1979 - O ano que ressignificou a MPB" (2022). Cada um representou momentos de virada na história brasileira recente, e a música foi protagonista dessas transformações.