O Brasil mudou de lugar ao longo das últimas décadas, ainda que de forma desigual, incompleta e marcada por contradições persistentes, mas as novelas, em grande medida, continuam onde sempre estiveram, apoiadas em uma estrutura narrativa que se repete com poucas variações e que parece cada vez menos capaz de dialogar com o país que emergiu fora da tela.
Há mais de meio século, a teledramaturgia brasileira se organiza em torno de um mesmo eixo: o casarão, a família ampliada, a elite que herda poder e a convivência entre classes mediada por relações pessoais, compondo um retrato que dialoga com o imaginário de Casa-Grande & Senzala, no qual as relações sociais se estruturam mais pela proximidade do que pela mobilidade.
Modernizaram-se cenários, linguagem, costumes e estética, mas o essencial permaneceu praticamente intacto. A estrutura social segue pouco dinâmica, a mobilidade raramente ocupa o centro da narrativa e o poder dificilmente se desloca de forma efetiva ao longo dos capítulos. O casarão mudou de endereço, mas não de lógica.
Nesse ambiente, a elite costuma ser apresentada como um espaço de conforto, muitas vezes dissociado do esforço produtivo, enquanto os conflitos se concentram em intrigas pessoais, disputas afetivas e ressentimentos familiares. Os núcleos populares surgem como contraponto simpático, com personagens frequentemente retratados como satisfeitos, sem que haja transformação real que espelhe o esforço cotidiano de milhões de brasileiros.
O resultado é uma dramaturgia da imobilidade e, mais do que isso, uma dramaturgia que abdica de representar aquilo que milhões de brasileiros desejam enxergar em si mesmos: a possibilidade concreta de superação, de mudar de patamar e se tornar classe média próspera.
O país real não ficou parado. Ao contrário das novelas, moveu-se e passou a expressar, de forma difusa, mas consistente, uma vontade de ascensão que atravessa diferentes camadas da sociedade e se materializa, sobretudo, no mundo do trabalho.
Hoje, o Brasil supera 100 milhões de pessoas ocupadas, e mais de 70% dos empregos formais estão ligados a micro, pequenas e médias empresas, enquanto os pequenos negócios respondem por cerca de 30% do PIB e sustentam a renda de dezenas de milhões de famílias. São mais de 15 milhões de microempreendedores individuais, muitos vivendo ciclos contínuos de tentativa, erro e recomeço, em uma dinâmica que revela uma busca persistente por mobilidade social.
Essa mobilidade não ocorre em saltos espetaculares, mas em movimentos lentos e acumulativos, muitas vezes medidos em anos de trabalho, em meses de esforço contínuo, em pequenas conquistas que, somadas, permitem a milhões sair da vulnerabilidade para uma condição mais estável.
É justamente essa lógica de superação gradual, imperfeita, mas real, que permanece sub-representada nas novelas, embora existam milhões de casos concretos todos os dias.
O Brasil que trabalha, empreende, se endivida, se reorganiza e insiste em avançar aparece pouco como protagonista. A classe média emergente, os profissionais liberais e os pequenos empresários permanecem periféricos, como se a mobilidade fosse exceção, quando, na prática, se tornou uma das principais forças silenciosas da sociedade brasileira.
Nas tentativas de atualização, a dramaturgia realizou um movimento incompleto: saiu da imobilidade para a violência, introduzindo tensão e realismo, mas deixando ausente o elemento central das grandes narrativas, a transformação sustentada pelo esforço.
Essa ausência não é apenas estética, é cultural. Ao não representar a mobilidade social como processo possível, a dramaturgia enfraquece a ideia de superação como horizonte coletivo e reduz o espaço simbólico onde o brasileiro pode se reconhecer como agente de mudança.
Enquanto isso, outras esferas culturais passaram a ocupar esse espaço, como o crescimento das igrejas evangélicas e a difusão da teologia da prosperidade, que oferecem uma narrativa direta de ascensão, conectando fé, disciplina e melhoria de vida.
O mundo mudou, o público mudou e o Brasil também mudou. Há hoje um país que já não se reconhece plenamente no modelo do casarão e da intriga permanente, mas que busca histórias que reflitam sua luta concreta por mobilidade.
As novelas não perderam só talento, mas perderam sintonia. A saída não está em abandonar sua tradição, mas em recolocar no centro da narrativa aquilo que hoje define o Brasil real: a superação como processo e a mobilidade como possibilidade.
Porque não basta mostrar desigualdade, é preciso mostrar movimento. Não basta mostrar conflito, é preciso mostrar transformação. Não basta mostrar violência, é preciso mostrar caminhos.
Se conseguirem fazer isso, poderão manter parte do lugar central que tiveram por tanto tempo, não apenas como entretenimento, mas como expressão viva de um país que, apesar de todas as dificuldades, continua, com barulho ou silenciosamente, tentando subir. É o que mantém o país à tona.
*Vinícius Lummertz é Senior Fellow do Milken Institute, foi ministro do Turismo e secretário de Turismo e Viagens de São Paulo.