Por: Vinícius Lummertz*

O mundo brutal e o Brasil no mesmo lugar

Há algo grandioso e frustrante que os brasileiros sabem e sentem, mesmo sem traduzir em diagnóstico político: o país poderia ser muito mais desenvolvido do que é. A sensação aparece em conversas cotidianas, em análises de economistas e no imaginário coletivo. O Brasil parece sempre à beira de um salto maior que nunca chega. O brutal contexto internacional torna essa percepção ainda mais perturbadora.

O sistema global atravessa uma fase de reorganização geopolítica. Não é ainda uma guerra mundial formal, mas o planeta vive uma sucessão de conflitos interligados. Como se buscasse algo semelhante ao resultado do acordo de Yalta, que reorganizou o mundo após a Segunda Guerra. A guerra na Ucrânia reabriu feridas na Europa. O Oriente Médio voltou ao centro do risco global com disputas que atingem o Golfo Pérsico, região vital para o fluxo de petróleo e para a estabilidade energética do mundo. Ataques a rotas marítimas mostram o quanto o comércio internacional depende de corredores frágeis. Foi num tempo como este que Getúlio Vargas fez escolhas que mudaram a história do Brasil, transformando vulnerabilidades em oportunidades.

Neste momento, grandes centros de investimentos convivem com riscos que antes pareciam remotos. Os Emirados Árabes Unidos transformaram Dubai em um dos maiores receptores de capital do planeta com uma estratégia simples e muito diferente da nossa: abertura econômica, segurança institucional e capacidade de atrair investimentos. Ainda assim, a proximidade com zonas de conflito lembra como a estabilidade pode ser rapidamente questionada.

A Europa enfrenta algo semelhante. A guerra da Ucrânia revelou dependências energéticas, tensões internas e fragilidades estratégicas, somadas à presença crescente de radicalismos e a um ambiente econômico pressionado por inflação e baixo crescimento.

Há ainda um terceiro elemento silencioso nesse cenário: o crescimento extraordinário do endividamento global. Desde a crise de 2008 e, sobretudo, após a pandemia de Covid-19, a base monetária das grandes economias explodiu. A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassa 35 trilhões de dólares, enquanto o endividamento global de governos, empresas e famílias supera amplamente a produção de bens e serviços do planeta.

Nunca houve tanto capital procurando estabilidade. É nesse ponto que o Brasil entra na equação mundial. O país reúne atributos raros: abundância de água, energia, terras agricultáveis e produção de alimentos em escala. Está distante das grandes zonas de conflito e possui um mercado interno relevante. Em um mundo tensionado, exportadores de alimentos e matérias-primas tornam-se estratégicos.

Há ainda um dado que revela a força estrutural do país. O Brasil acumula há décadas grandes superávits comerciais. Em 2023 e 2024, por exemplo, o saldo positivo superou 90 bilhões de dólares. O país figura consistentemente entre os maiores superavitários do planeta, resultado direto da competitividade do agronegócio e da força das commodities.

Trata-se de uma posição invejável na economia global. Mas aqui aparece a fonte da crônica decepção brasileira. Esse superávit raramente foi utilizado como plataforma para modernizar a economia. Em vez de converter essa vantagem em infraestrutura, produtividade e competitividade, o país preferiu expandir gastos correntes. Em termos simples, transformamos ganhos estruturais em consumo público.

A abertura econômica iniciada nos anos 1990 foi parcial e perdeu impulso. O Brasil continua entre as economias mais fechadas do mundo. Enquanto países como a China utilizaram a integração comercial para impulsionar sua industrialização, o Brasil assistiu a um processo gradual de desindustrialização.

Mesmo assim, o país continua atraindo investimentos estrangeiros relevantes. O problema é que grande parte desse capital chega para comprar ativos existentes, não para construir novos. Investidores globais demonstram interesse, mas frequentemente encontram barreiras que desestimulam projetos de longo prazo. Licenciamentos demorados, insegurança regulatória e burocracia transformam oportunidades em frustração. O Brasil não é sabotado. Autossabota-se como segunda natureza.

O resultado é uma situação paradoxal. O mundo vive um momento de instabilidade crescente, enquanto o Brasil reúne condições naturais, territoriais e culturais para se tornar um dos lugares mais seguros do planeta para investimentos produtivos. Ainda assim, o país permanece preso a limitações criadas por ele próprio.

A diferença essencial é que os grandes riscos brasileiros são internos. Estão sob nosso controle. Essa é precisamente a oportunidade que o país parece incapaz de enxergar. Em um mundo marcado por conflitos geopolíticos, excesso de capital financeiro e busca por estabilidade, poucos territórios possuem as condições naturais e humanas do Brasil para se tornar um grande polo de desenvolvimento, produção e convivência.

O país poderia ser um vetor de expansão econômica do Ocidente e, ao mesmo tempo, um espaço aberto a talentos e investimentos vindos de todas as partes do mundo. Nossa história demonstra essa capacidade de integração cultural. Poderíamos significar esperança, como no Brasil sonhado por Darcy Ribeiro, Juscelino e Osiris Silva, honrando a paciência de um povo que não suporta mais ver gerações de oportunidades perdidas.

*Vinícius Lummertz é Senior Fellow do Milken Institute, foi ministro do Turismo e secretário de Turismo e Viagens de São Paulo.