Correio da Manhã
Tales Faria

Flávio gravou vídeo de sua campanha e do adversário

Flávio Bolsonaro foi se apresentar nos EUA para gravar vídeo de campanha, mas os marqueteiros de Lula já preparam chamadas com cenas da mesma apresentação

Flávio gravou vídeo de sua campanha e do adversário
Flávio e Eduardo Bolsonaro na apresentação do USTR Crédito: Reprodução Redes Sociais

A equipe da campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República disse à imprensa que, nesta terça-feira, 07, na audiência pública do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR na sigla em inglês), ele cumpriu o roteiro que estava programado para sua fala.

Do ponto de vista prático, a intervenção de um candidato a presidente do Brasil pela oposição não ajudaria em nada nas negociações com Donald Trump. Pelo contrário. O mais provável era que ele fosse à audiência para criar dificuldades ao governo a que se opõe. E foi exatamente assim que o senador Flávio Bolsonaro agiu.

Mas o que a campanha quis dizer com roteiro programado? Programado para quê?

Inicialmente, como já foi dito, para criar dificuldades às negociações do governo. Depois, para tentar desfazer a má impressão que o clã deixou no eleitorado quando pediu e comemorou a primeira leva do tarifaço dos EUA contra o Brasil.

Então Flávio resolveu anunciar que iria pedir que não haja tarifaço algum antes as eleições. Chegou a defender, em carta enviada no dia 2 ao USTR, que o tarifaço seja adiado por 180 a 270 dias. Não notou que, ao pedir adiamento, estava confirmando a defesa do tarifaço, o que desagradou ao empresariado brasileiro. Então passou a dizer, já lá nos EUA, que defende o fim do tarifaço, não apenas o adiamento. Mas o estrago já estava feito.

Por fim, o roteiro para a fala de ontem no USTR prevê a sua gravação para ser reproduzida nos vídeos da campanha eleitoral. É o que se quis dizer com "cumpriu o roteiro": uma fala curta, de cinco minutos, mas com espaço suficiente para ser editada e ter bons trechos reproduzidos no horário eleitoral e nas redes sociais.

A ideia é mostrar que ele buscou defender o país, atacando o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que – no seu discurso – é o responsável pelas ameaças de tarifaço do Donald Trump. Segundo sua versão, o tarifaço é apenas uma reação do líder norte-americano aos discursos agressivos de Lula contra os EUA. Se for ele o eleito para o Palácio do Planalto, será muito mais fácil um entendimento com Donald Trump.

De fato, na carta que pediu ao USTR o adiamento do tarifaço, Flávio demonstrou total boa vontade. Sugeriu que, se eleito, poderá até acabar com o Mercosul. Acenou com a edição de uma lei para limitar transações com pix, assim como propôs – entre outras vantagens para os EUA – a eliminação de tarifas para o etanol e a redução da carga tributária de empresas de cartão de crédito.

Juntando sua fala com a carta – coisa que qualquer marqueteiro sabe fazer muito bem – o pré-candidato produziu matéria prima para ele, mas também para a equipe da campanha pela reeleição do presidente Lula. Que já deve estar preparando as "chamadas".

De uma só vez, no mínimo, Flávio Bolsonaro gravou nos EUA vídeos para a sua campanha e a do adversário. Pode-se dizer que é um fenômeno de marquetagem.