Correio da Manhã
Tales Faria

Carta de Flávio aos EUA assusta

Depois de se ver obrigado a tentar contornar os problemas com o eleitorado feminino, Flávio Bolsonaro agora terá que driblar insatisfações na Faria Lima e no agronegócio

Carta de Flávio aos EUA assusta
Flávio Bolsonaro e Donald Trump Crédito: Reprodução Redes sociais

Depois de se ver obrigado a tentar contornar os problemas com o eleitorado feminino, causados por sua briga com Michelle Bolsonaro, o candidato do PL à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro (RJ), agora terá que driblar insatisfações em outro grupo fundamental para sua campanha eleitoral, a chamada Faria Lima. Motivo: a carta que enviou na quarta-feira 02 ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês).

No documento ele pediu o adiamento do tarifaço dos EUA contra o Brasil e - para atiçar o desejo de Donald Trump de dominação sobre a América Latina - sugeriu que está disposto a colocar um fim no Mercosul.

Flávio Bolsonaro oferece ainda vantagens comerciais aos EUA, como a eliminação de tarifas para o etanol e a redução da carga tributária de empresas de cartão de crédito. E propõe um "compromisso legislativo", ou seja, uma lei brasileira, determinando que o Pix não será conectado a arranjos "não ocidentais" —numa referência à China.

Essa limitação ao pix tende a desagradar a toda cadeia de comercio voltada para o mercado interno agora, e para o futuro do mercado externo, na medida em que se abram novas fronteiras para os produtos brasileiros.

Também a sugestão de acabar com o Mercosul é hoje assustadora para diversos setores da economia.

A Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo), por exemplo, que já foi contrária ao acordo comercial com os países latino-americanos, recebeu com entusiasmo o acordo de livre-comércio do bloco latino com os europeus. Embora reconheça que o tratado não seja perfeito, a entidade avalia que ele é um marco para ampliar a segurança jurídica, facilitar o comércio de serviços e integrar o Brasil nas cadeias globais de valor.

O agronegócio brasileiro, então, vê os acordos do Mercosul com a Europa e os países asiáticos como decisivos para aumentar a comercialização dos nossos produtos do campo. As empresas de mineração, idem.

Para esses setores, o comércio com os EUA é importante, mas a diversificação voltada para a Ásia e a Europa, juntas, hoje é considerada essencial, indispensável.

A carta de Flávio Bolsonaro é quase assustadora quando vista como uma espécie de programa de governo, ao acenar com um foco absoluto na relação com os norte-americanos. Seria uma volta ao passado na política comercial internacional do Brasil.

Para piorar, Flávio pede na carta não o fim, mas apenas o adiamento do tarifaço contra o Brasil para depois das eleições (180 a 270 dias), e propõe o retorno "automático" das tarifas caso o atual governo brasileiro não se engaje, de boa-fé, nas negociações. "O governo atual teria esse período para se engajar em negociações de boa-fé, sem a perspectiva de dividendos eleitorais, ou enfrentaria as consequências da retomada dessas ações", disse, acrescentando:

"No caso de uma vitória da oposição, o presidente eleito nomearia imediatamente um negociador para conduzir as negociações adiante, também de boa-fé" com os EUA.

Assim como teve que se explicar e até pedir desculpas públicas à Michelle Bolsonaro, muito provavelmente Flávio precisará gastar saliva junto ao empresariado para convencer de que a carta é apenas um texto de campanha e não um presságio sobre o que seria seu governo.