Por: Tales Faria

Atropelado, centrão teme aliança com Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro: aliança temida pelo centrão | Foto: Lula Marques/Agência Brasil

O candidato do PL a presidente, senador Flávio Bolsonaro (RJ), tem encontrado mais dificuldades do que esperava para acertar alianças de sustentação à sua campanha nos estados. Flávio considera fundamentais essas alianças para a montagem de palanques capazes de recebê-lo em eventos locais e reverberar a sua campanha.
Mas o fechamento da janela partidária aumentou a desconfiança entre os possíveis aliados do PL no centrão sobre o comportamento e a fidelidade dos bolsonaristas.
Já durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), pai de Flávio, era grande a reclamação dos aliados nos bastidores sobre o autoritarismo dos bolsonaristas, que não aceitavam dividir espaços de poder e não cumpriam acordos.


Ocorria de acertos fechados serem repentinamente desmontados a mando do próprio Bolsonaro ou por intervenção de seus filhos. Flávio comandava com mão de ferro o PL no Rio. O vereador Carlos Bolsonaro se metia em praticamente todas as áreas, e Eduardo Bolsonaro, então deputado federal por São Paulo, conseguiu brigar com as principais lideranças do partido no estado, como Joice Hasselmann, Carla Zambelli e Antonio Carlos Rodrigues.


As intervenções foram tantas que o PL chegou a 2023 como a legenda que mais perdeu parlamentares.Teve um saldo negativo de 12 deputados, sendo 16 desfiliações contra quatro filiações desde a eleição.


Agora, na montagem de alianças nos estados, o clã voltou a atacar. Carlos Bolsonaro foi imposto como candidato ao Senado em Santa Catarina, assim como Sérgio Moro foi imposto como candidato a governador no Paraná, desmontando alianças fechadas com o PP, o PSD, o Podemos e o MDB locais.


Em São Paulo, Eduardo Bolsolsonaro quer – e tende a conseguir – impor um amigo pessoal, o deputado estadual Gil Diniz, como candidato ao Senado, contra a vontade de praticamente todas as lideranças aliadas.


Até Michelle Bolsonaro entrou na história. No Ceará quase conseguiu desmanchar a aliança que o comando nacional do PL havia fechado com o ex-governador Ciro Gomes (PDT).
Mesmo na chapa presidencial, enquanto o centrão tenta emplacar a senadora Tereza Cristina (PP-MS) como candidata a vice, os bolsonaristas insistem no ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Partido Novo), ideologicamente mais próximo do ultraconservadorismo.


Agora no fechamento da janela partidária, ocorrido na sexta-feira dia 3, os aliados descobriram que os bolsonaristas montaram uma verdadeira força-tarefa para tomar parlamentares das legendas próximas.


O partido armou um comando centralizado para atrair deputados dos partidos do centrão por meio das alianças eleitorais. O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, chegou a divulgar um documento com as normas e diretrizes para realização das convenções locais do partido e alianças com outras legendas. A ideia era ter controle total sobre os diretórios estaduais. Disse a nota que as direções locais terão que apresentar as chapas e pretensões de coligações à Executiva Nacional antes de fechá-las. Se as convenções nos estados não tivessem em “plena conformidade” com as decisões do Diretório Nacional, poderia ocorrer a intervenção e nulidade dos acordos firmados. Mais de 120 deputados trocaram de sigla.

Enquanto o PL cresceu e ultrapassou a marca de 100 cadeiras, o União Brasil registrou as maiores perdas. O partido perdeu nomes de peso, como os deputados Mendonça Filho(PE), relator da PEC da Segurança; Alfredo Gaspar (AL), relator da Comissão Parlamentar Mista (CPMI) do INSS; e Rodrigo Valadares (SE), relator da primeira versão do projeto da anistia.
Não foi à toa que o centrão se sentiu atropelado. Por tudo isso, aumentou a desconfiança de que uma vitória de Flávio Bolsonaro poderá levar o clã a repetir o modelo autoritário do governo do pai.