Por: Tales Faria

O suicídio mal explicado do sicário

Sicário teve a morte confirmada após dias internado em estado grave | Foto: Divulgação

Até agora, muito pouco ou quase nada foi divulgado sobre as circunstâncias da morte de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, chamado de "Sicário" por seu chefe, Daniel Vorcaro, o dono de Banco Master.

Segundo os dicionários, sicário é o mesmo que assassino pago, malfeitor, facínora, sanguinário, cruel. Não há lembrança de sicários que tenham se suicidado por arrependimento dos crimes. Mas este Sicário, segundo a Polícia Federal, suicidou-se. Como e por qual motivo, ainda não se sabe ao certo.

A PF afirma que tudo foi filmado e será entregue ao relator do inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro André Mendonça.Fala-se nos bastidores que ele teria se enforcado com a camisa. Mas são apenas conversas de bastidores, porque, vale repetir, muito pouco ou quase nada foi divulgado sobre o suicídio. Até a ditadura militar tentou dar mais informações sobre uma outra morte, à época falsamente classificada como suicídio.

Não vale comparar os personagens. Hoje estamos falando de um sicário a serviço do que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, classificou como a maior fraude bancária da história do país.

No passado, em 1975, a ditadura tentou forjar o suicídio de um dos mártires da luta pela democracia no país, o jornalista Vladimir Herzog, símbolo de resistência, de luta pela verdade e de um Brasil que ousou se levantar contra os horrores impostos pela repressão.

A única coisa em comum, ao que parece até agora, é a história mal explicada. Como alguém se suicida numa cela sob a vigilância do Estado? Na tentativa de explicar a morte de Herzog, os militares apresentaram uma foto com o jornalista enforcado por um pano preso à janela do cárcere, e com as pernas dobradas sobre o chão. Teria se enforcado com os pés sobre o chão.

Segundo o Relatório de número 71, da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), divulgado em 2015, a Secretaria de Segurança apresentou na época uma suposta perícia técnica em que os peritos afirmavam ter havido suicídio. Disse a CIDH:

"De fato, [...] foi redigido um relatório criminalístico a cargo do oficial Motoho Chiota, que concluiu que 'o cenário em que foi encontrado o cadáver correspondia a um quadro típico de suicídio por enforcamento'. Também foi elaborado um laudo necroscópico, assinado pelos médicos legistas do Instituto Médico Legal do estado de São Paulo, Arildo Viana e Harry Shibata. Uma famosa e controversa foto na qual Vladimir Herzog aparece pendurado por um pedaço de pano na janela da cela em que estava também foi anexada à perícia criminalística como prova do suicídio."

Resultado: O Estado brasileiro foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) pela detenção, tortura e assassinato do jornalista Vladimir Herzog. Nada de suicídio.

Agora vivemos tempos de democracia. A Polícia Federal tem obrigação de apresentar a história verdadeira do suicídio.

O sicário Luiz Philipi Mourão, se vivo, poderia revelar nomes poderosos envolvidos no escândalo do Banco Master. Sua morte traz suspeitas de que tenha sido queima de arquivo. O ministro André Mendonça não pode deixar a sociedade sem explicação. Espera-se que não apareça uma foto forjada como fizeram os militares na ditadura.