O senador José Gomes Pinheiro Machado foi uma eminência parda da República Velha. Autoritário, tinha tanta influência que era conhecido como o tirano-mor do país. Foi alvo de protestos populares quase diários no Palácio do Conde dos Arcos, onde hoje funciona a Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Em um desses dias turbulentos, Pinheiro Machado foi aconselhado a deixar o prédio pela porta dos fundos. Mas ele desceu pela escadaria da frente e ordenou ao chofer do seu coche: "Siga em uma velocidade nem tão devagar que pareça afronta, nem tão depressa que pareça medo."
A frase entrou para a história da política brasileira. Uma de suas variações está sendo usada agora pela equipe de comunicação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em relação à guerra dos EUA e de Israel contra o Irã: Critique duramente a agressão à soberania dos iranianos, mas não se estenda muito.
Por que não se estender? Porque não dá votos defender uma ditadura como a dos aiatolás. No entanto, Lula e o PT sempre criticaram o desrespeito à soberania dos países. A política externa brasileira é pautada pela não intervenção em assuntos internos das nações, diferentemente da política externa dos Estados Unidos.
Não é uma posição de agora. Uns mais, outros menos, também os governos de Fernando Henrique Cardoso, Michel Temer, Itamar Franco e até os militares sempre defenderam o direito à autodeterminação dos povos.
Daí porque Lula e a diplomacia brasileira criticaram, por exemplo, a invasão da Venezuela pelos EUA e, sobretudo, o sequestro do presidente Nicolás Maduro, independentemente de ele ter sido um ditador.
Historicamente os norte-americanos sempre foram intervencionistas. Donald Trump apenas exacerbou esse traço da política externa dos EUA. George W, Bush invadiu o Iraque, caçou e prendeu o presidente Sadam Hussein e pressionou o país a julgar e executar o ditador. Os EUA também invadiram a Guatemala e tantos outros países.
O problema agora é que vivemos tempos de polarização da esquerda contra os ultraconservadores bolsonaristas que, por princípio, tendem a apoiar Donald Trump.
Para os bolsonaristas, este é o momento propício de colocar em pauta a defesa dos EUA e tentar apagar a lembrança da derrota na defesa do tarifaço que Donaldo Trump aplicou contra as empresas brasileiras.
No caso do Irã, a opinião pública tenderá a se posicionar contra ditaduras como a dos aiatolás e não se aprofundar numa discussão teórica sobre a autodeterminação dos povos. Do ponto de vista da campanha eleitoral, será um desastre para Lula e para o PT insistir nesse tema. Mas nem o presidente, nem o seu partido podem abandonar uma questão tão decisiva do ponto de vista ideológico.
Qual a solução?
A solução apontada a Lula por sua equipe de comunicação é aproveitar o conselho de Pinheiro Machado: seguir em frente. Nem tão fortemente que pareça afronta, nem tão suavemente que pareça medo.
E torcer para que o assunto não se estenda.