Por: Tales Faria

Afastamento entre Tarcísio e Kassab: anotações de Flávio revelam motivo

Tarcísio de Freitas e Gilberto Kassab | Foto: Mônica Andrade/Governo do Estado de SP

Pré-candidato a presidente da República, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) abandonou na sala em que se reuniu com integrantes da cúpula do partido, nesta terça-feira 24 em São Paulo, uma listagem impressa com anotações de próprio punho sobre sua estratégia para alianças que pretende montar nos estados.

Participaram dessas conversas o coordenador da campanha de Flávio, senador Rogério Marinho (PL-RN), e o presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto.

O descuido acabou vazando e revelaou um enigma do mundo político que poderá ter influência decisiva nas eleições de outubro: o motivo do afastamento entre o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o seu poderoso secretário de Governo e de Relações Institucionais, Gilberto Kassab, que também é presidente nacional do PSD.

A listagem tem como título "Situação nos estados" com uma anotação de Flávio logo no início: "Ligar Para Tarcísio".

O texto revela possíveis candidatos à vaga de vice na chapa pela reeleição de Tarcísio. O nome do atual vice-governador, Felício Ramuth (PSD), que estava praticamente certo na chapa, aparece ligado por uma seta apontando a um "$".

Ramuth é do partido de Kassab e aparentemente perderá a vaga. Ele é alvo de uma investigação sobre lavagem de dinheiro, mas nega ter cometido qualquer irregularidade.

Abaixo, há uma pergunta: "André do Prado vice?", em referência ao presidente da Assembleia Legislativa, que é do PL.

O deputado Guilherme Derrite (PP), muito identificado com o bolsonarismo, é um dos candidatos ao Senado na chapa, mas o segundo nome elencado pela cúpula do PL também deverá ser escolhido pelo clã do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O rascunho traz escritos à mão cinco possíveis candidatos: Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, Mario Frias, Eduardo Bolsonaro (que está inelegível, mas considera que ele é quem deve escolher o candidato ao Senado), Ricardo Mello Araújo e Marco Feliciano.

Ou seja, as escolhas não passam pelo PSD nem por Gilberto Kassab. E não é só isso.

As anotações indicam total descrença da cúpula do PL a respeito da montagem da chapa em Minas Gerais tendo como candidato o vice-governador Mateus Simões, trazido ao PSD por Kassab. Simões leva a seguinte observação de Flávio Bolsonaro: "me puxa para baixo se for candidato".

O PL de Flávio Bolsonaro contava com o deputado federal do partido Nikolas Ferreira, mas ele não quer concorrer ao Executivo. Os bolsonaristas, então, segundo as anotações, preferem lançar Flávio Roscoe, presidente da Fiemg (Federação das Indústrias de Minas Gerais), a apoiar o nome do PSD de Kassab. Ao lado de Roscoe está escrito "conversa com Nikolas".

O senador Carlos Viana (Podemos), o secretário estadual Marcelo Aro (PP) e os deputados federais Eros Biondini (PL) e Domingos Sávio (PL) estão listados como candidatos ao Senado. Apenas Viana e Sávio têm um traço feito à caneta de endosso ao lado do nome.

A listagem mostra uma concordância com um nome do PSD para chefe do Executivo: a governadora Raquel Lyra (PSD) é apontada como escolha dos bolsonaristas. Mas tem um motivo para essa concordância: as anotações do rascunho indicam que Raquel Lyra apoia o deputado Mendonça Filho para o Senado e que ele poderá trocar o União Brasil pelo PL.

Kassab já reclamou com Tarcísio de que a estratégia da família Bolsonaro pelo país prejudica os partidos aliados nesses estados, como também está ocorrendo em Santa Catarina e no Distrito Federal. O governador levou a Bolsonaro a reclamação e ouviu como resposta que Kassab não é aliado, pois está lançando três pré-candidatos contra Flávio Bolsonaro. O governador, então, está tendo que escolher de que lado ficar.