Por: Tales Faria

Como dona Flor, Hugo Motta pauta a semana para seus dois maridos

Hugo Motta e Guilherme Derrite | Foto: Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), está como a Flor, personagem de Jorge Amado que dividia seus dotes entre dois maridos.

De um lado, o presidente da Câmara acena com suas habilidades para o governo. De outro, se entrega e faz favores ao Progressistas, seu partido, que jura não integrar o centrão do Congresso, mas vota com esse agrupamento a maior parte das vezes. Como o centrão e o próprio Hugo Motta, o Progressistas ora está de um lado, ora de outro.

A aprovação, ainda nesta semana, do acordo entre o Mercosul e a União Europeia é o aceno da vez de Motta para o governo. Mas, para desespero do Palácio do Planalto, o presidente da Câmara também virou-se para o Progressistas naquilo que menos agrada ao governo: anunciou o deputado Guilherme Derrite (Progressistas-SP) novamente relator do Projeto de Lei Antifacção.

Como relator, quando aprovado pela primeira vez na Câmara, Derrite alterou de tal forma o projeto enviado pelo governo que o Palácio do Planalto chegou a declará-lo completamente "desfigurado".

No Senado, os governistas e o novo relator, Alessandro Vieira (MDB-SE), derrubaram o texto de Derrite. Aprovaram uma versão que não retira da União o poder de influir na área de segurança dos estados. Mas o texto teve que voltar à Câmara e Hugo Motta devolveu a Derrite. Como dona Flor, entregou-se aos seus dois maridos. Talvez três - ou não se sabe quantos - porque um deles, como o Vadinho do romance de Jorge Amado, tem seus amantes.

Motta deu ao presidente nacional do Progressistas, o deputado Marcos Pereira (SP), a relatoria do acordo entre União Europeia e Mercosul. O deputado é da ala mais próxima ao governo dentro do partido e, quando ministro da Indústria e Comércio, estabeleceu laços com o empresariado paulista, que está muito interessado no acordo com os europeus.

No meio do caminho entre seus dois ou três amores - ou sabe-se lá quantos - Hugo Motta havia dado ao relator da PEC (Proposta de Emenda Constitucional) da Segurança, deputado Mendonça Filho (União-PE), o prazo até o Carnaval de fechar um texto de consenso entre os partidos. Mendonça não conseguiu, e o presidente da Câmara adiou a votação que estava prevista para esta semana.

Bom para o governo, que reclama de vários pontos da proposta do relator: as mudanças no SUSP (Sistema Único de Segurança Pública) e a destinação de mais recursos aos estados por meio de fundos nacionais, assim como a proposta de um plebiscito sobre a redução da maioridade penal para 16 anos.

O casamento de Motta com o governo ainda não está plenamente consumado. Será posto à prova neste ano nas eleições municipais, na indicação do representante da Câmara como ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) e na tramitação dos projetos de derrubada da escala 6x1 e da tarifa zero para transporte público no país.

Na Paraíba, Motta quer o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a seu pai, que é candidato ao Senado contra Veneziano Vital do Rego (MDB). Só durante a campanha se saberá, de fato, quem está do lado de quem.

Na eleição do ministro do TCU, também durante a campanha é que se será revelado com qual dos seus "maridos" Hugo Motta ficou. Quando candidato ao comando da Câmara, ele prometeu a vaga a Odair Cunha (PT-MG). Mas o centrão tem dois candidatos, Hugo Leal (PSD-RJ) e Danilo Forte (União). A votação é feita no plenário da Casa e até Arthur Lira (PP-AL) ameaça concorrer.