Por: Tales Faria

Alckmin: de herói contra o tarifaço a obstáculo para alianças

Alckmin conta com o apoio de Lula | Foto: Jose Cruz/Agência Brasil

"Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou", dizia José de Magalhães Pinto, fundador, na década de 1940, da velha UDN (União Democrática Nacional) e do antigo Banco Nacional.

Os políticos também uma hora estão de um jeito, outra hora estão de outro. Que o diga o vice-presidente Geraldo Alckmin. Na eleição de 2022, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o chamou para vice a fim de dar um verniz de direita à chapa presidencial.

Foi uma jogada inesperada. Alckmin era um tucano histórico, visto como integrante da ala direita do partido. Ex-governador de São Paulo, foi atropelado por João Doria quando este assumiu o Palácio dos Bandeirantes, se afastou do PSDB e da política até ser convocado por Lula.

Para compor a chapa, teve que se transferir para o PSB. Graças à química eleitoral entre os dois, fizeram de Jair Bolsonaro (PL) o primeiro presidente a não se reeleger após a redemocratização do país.

No governo, além de vice, tornou-se ministro da Indústria e Comércio e herói da resistência ao tarifaço imposto pelo presidente dos EUA, Donald Trump, ao Brasil.

Mas vem aí nova campanha eleitoral, e o esquerdista Lula precisa novamente de um verniz de direita para enfrentar Flávio Bolsonaro, o filho Zero-Um que Bolsonaro ungiu como candidato ao Palácio do Planalto.

Agora filiado ao PSB, cujo nome por extenso é Partido Socialista Brasileiro, Alckmin já não é mais um político de direita.

O problema é que Lula precisa de sua vaga para chamar alguém do centrão, mas o presidente não quer atropelar seu vice, que deseja continuar na chapa. Pareceria uma ingratidão muito grande, com péssima repercussão na imagem do candidato.

Um cacique do PSB lembrou à coluna: "Porque atropelou e foi desleal com Alckmin, o Dória recebeu um carimbo que não saiu dele. Perdeu a eleição."

Lula não quer esse carimbo. Tentará convencer seu vice a concorrer em São Paulo, seja a governador, ou ao Senado. Mas já sabe que Alckmin tem dito que prefere desistir da política. O vice tornou-se um estorvo no momento em que o presidente tem duas batalhas pela frente.

Uma batalha será caso escolha um emedebista como candidato. Lula terá que derrotar, na convenção nacional do MDB, o grupo hoje majoritário do partido, comandado pelo presidente da sigla, Baleia Rossi, deputado federal por São Paulo.

Baleia já disse não abrir mão da aliança com o governador bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos). Ou seja, será uma batalha duríssima.

A outra batalha de Lula seria trazer para vice o presidente do PSD, Gilberto Kassab. Terá que convencê-lo a trair três governadores a quem Kassab já prometeu a candidatura presidencial pela legenda: Ratinho Junior (Paraná), Ronaldo Caiado (Goiás) e Eduardo Leite (Rio Grande do Sul).

Dizem no partido que Kassab gostaria de ser candidato a vice-presidente da República. Lula desmontaria a possibilidade de uma terceira via contra ele e Bolsonaro. Mas não seria tarefa fácil para o presidente do PSD enfrentar os três governadores dentro do partido.

Lula só poderá partir para a batalha do MDB ou a batalha do PSD se solucionar sem traumas a batalha com Geraldo Alckmin. O que será muito difícil.