Por: Tales Faria

Delação de Vorcaro assusta Brasília

Daniel Vorcaro: negócios suspeitos | Foto: Divulgação

O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (RJ), disse à coluna que é "pouco provável" uma delação premiada de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Argumentou que há possibilidade de envolvimento de "membros do Judiciário" com o caso.

O ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), colocou todo o inquérito sob sigilo por haver alguém com foro privilegiado citado. Especula-se tratar de uma citação irrelevante envolvendo o deputado João Carlos Bacelar (PL-BA), mas que serviu para colocar tudo sob sigilo.

Nesta quarta-feira, 21, o advogado Walfrido Warde deixou a equipe de defesa do banqueiro. Warde é conhecido como contrário a delações premiadas. Sua saída deflagrou expectativas de que Vorcaro, preso no Aeroporto de Guarulhos quando viajaria a Abu Dhabi, estuda um acordo de delação. O banqueiro foi solto dois dias após a prisão.

O Master foi liquidado pelo Banco Central por operações suspeitas que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, classificou como, talvez, o maior escândalo da história do mercado financeiro no Brasil.

O banqueiro tornou-se conhecido por suas relações com nomes poderosos do centrão, da oposição, do governo e do Judiciário. Ostentava riqueza, levando políticos e celebridades para festas, iates e viagens em jatinhos e lugares luxuosos pelo mundo.

"O STF jamais aceitará uma delação que tenha membros do Judiciário envolvidos. Exceto se ele delatar só os da política e não fale sobre ninguém do Judiciário", argumenta Sóstenes Cavalcante.

O possível envolvimento de poderosos leva a que muitos parlamentares evitem falar da possibilidade de delações. Outros, procuram demonstrar distanciamento de Vorcaro e fazem até galhofa. É o caso do senador Esperidião Amim (PP-SC). Perguntado se acha que haverá delação, ele respondeu: "Sonho que sim! Você já curtiu o Tayayá?"

Trata-se de uma referência ao resort no Paraná que teve como acionistas irmãos e um primo do ministro Dias Toffoli, mas passou a ser controlado, no final do ano passado, por um advogado goiano que atua para a JBS, dos irmãos Joesley e Wesley Batista.

O presidente nacional do partido de Esperidião, senador Ciro Nogueira (PI), é apontado no Congresso como grande amigo de Vorcaro. Mas, da mesma forma que Toffoli, nada de ilegal foi relacionado.

Quando a Polícia Federal (PF) deflagrou a primeira fase da Operação Compliance Zero, além de prender o dono do Banco Master, um ex-sócio do banqueiro também foi alvo da ação: o empresário baiano Augusto Ferreira Lima. Ele figurou como um dos principais alvos da investigação por sua atuação anterior como ex-CEO do Master.

Lima foi responsável pelo cartão de crédito consignado Credcesta, que se tornou um dos pilares da estratégia de negócios de Vorcaro. Deixou a sociedade em maio de 2024, mas em agosto de 2025 passou a controlar o Banco Pleno S.A. (antigo Banco Voiter), concentrando ali os negócios de crédito consignado desenvolvidos sob sua liderança.

A ascensão de Augusto Lima no setor financeiro começou com a aquisição, em 2018, da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), estatal responsável pela rede de supermercados Cesta do Povo, em um processo de privatização promovido pelo então governador Rui Costa (PT), hoje ministro-chefe da Casa Civil.

Por tudo isso, é que o afastamento do processo de um advogado contrário a delações premiadas acendeu a luz vermelha em escritórios de várias alas do poder em Brasília.