Por: Tales Faria

PT pressiona Lula a recusar convite para o Conselho de Paz de Trump

Os presidentes Lula e Donald Trump | Foto: Reprodução

Tornou-se uma dor de cabeça para o PT o convite para o Brasil integrar o Conselho de Paz cunhado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para discutir a reconstrução da Faixa de Gaza.

O convite de Trump ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou à embaixada brasileira em Washington na sexta-feira, 16. Também foram convidadas as lideranças de 60 países, o que desencadeou um verdadeiro reboliço na comunidade internacional.

Argentina, Hungria e Marrocos já aceitaram o convite. Mas segundo as agências internacionais de notícias, o envio das cartas gerou preocupação entre autoridades mundiais, principalmente na Europa. Diplomatas disseram que a medida também pode enfraquecer as Nações Unidas como um todo.

O novo órgão é uma estrutura criada por Trump para, segundo ele, atuar na manutenção da paz e na reconstrução da Faixa de Gaza e poderá servir em outros conflitos internacionais no futuro.

De acordo com uma cópia do estatuto do Conselho divulgada na mídia internacional, Trump terá mandato vitalício como presidente do grupo. Haverá também um "Conselho Executivo fundador" e um "Conselho Executivo de Gaza", que supervisionará todo o trabalho em campo de outro grupo administrativo, o Comitê Nacional para a Administração de Gaza (CNAG).

Países que desejarem um assento permanente, inclusive o Brasil, precisarão pagar US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,37 bilhões). Os recursos serão administrados pelo presidente dos EUA. Nenhuma mulher e nenhum palestino foram anunciados até o momento para o grupo, mas a Casa Branca afirmou que membros adicionais virão nas próximas semanas.

O Brasil ainda não decidiu se aceitará o convite. O presidente Lula acionou o Ministério das Relações Exteriores para fazer um levantamento sobre como se comportarão os demais países convidados.

Lula já teria, inclusive, uma conversa sobre o assunto marcada para esta semana com o presidente da França, Emmanuel Macron. Um porta-voz do governo francês, Pascal Confavreux, disse em entrevista à CNN que Macron, "por ora, não participará".

Questionado sobre a negativa de Macron, Trump respondeu: "Ninguém o quer porque ele estará fora do cargo muito em breve". Em seguida, falou em taxar produtos franceses em retaliação: "Vou impor uma tarifa de 200% sobre seus vinhos e champanhes e, assim, ele vai aderir."

Defensores da participação do Brasil, argumentam que o convite pode marcar um avanço importante na retomada de relações com os Estados Unidos após a retirada de parte das tarifas impostas por Trump para a importação de produtos brasileiros. A recusa, por outro lado, seria um gesto de hostilidade que pode causar ruptura definitiva com o mandatário dos EUA.

Em entrevista coletiva de imprensa nesta terça-feira, 20, sobre o balanço do primeiro ano do seu segundo mandato, Trump disse gostar de Lula e falou que espera que ele entre para o Conselho de Paz. "Eu o convidei. Eu gosto dele. Lula terá um grande papel no Conselho de Paz de Gaza", afirmou.

Mais cedo, durante um evento no Rio Grande do Sul, Lula teceu críticas a Trump. Disse que o presidente dos EUA quer "governar o mundo pelo Twitter".

O PT pressiona o presidente a não aceitar participação no Conselho. A avaliação do partido é que Trump deseja criar uma entidade autônoma sobre a qual ele tenha total controle. Com isso, enfraquecerá ainda mais mecanismos multilaterais, como a ONU (Organização das Nações Unidas). O Brasil estaria caindo numa verdadeira armadilha.

Armadilha inclusive na relação com Israel, já que o próprio Lula se manifestou contra a invasão de Gaza. A participação no Conselho seria uma forma de legitimar o controle norte-americano em aliança com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que declarou Lula como "persona non grata" no seu país.