Por: Tales Faria

Para militares, após Venezuela, EUA podem querer a Margem Equatorial

Ao definir suas prioridades militares, Estados Unidos se aproximam da 'Doutrina Monroe' | Foto: Ricardo Stuckert/PR

Comandantes militares informaram ao Ministério da Defesa e ao Palácio do Planalto que, após a invasão da Venezuela, os Estados Unidos podem se voltar para dominar a extração de petróleo na Margem Equatorial do Brasil.

O recado dos militares é de que está passando da hora de o Brasil tomar conta da região, do ponto de vista econômico. Caso contrário, não só os EUA como outras potências irão se aventurar.

Os militares brasileiros ficaram preocupados com a primeira entrevista coletiva de imprensa do presidente dos EUA, Donald Trump, no sábado, 3, em que ele tratou da invasão da Venezuela e do sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

A preocupação não se dá por motivos ideológicos, pois os militares brasileiros têm proximidade histórica com os colegas norte-americanos. O foco dos militares é a questão geopolítica.

Donald Trump deixou claro que está priorizando a obtenção de novas fontes de energia para seu país, especialmente petróleo, e também fontes de minerais críticos.

Ele enfatizou que seu governo retomou a chamada "Doutrina Monroe" na sua relação com a América Latina.

Criada em 1823 pelo então presidente James Monroe, essa "doutrina" estabelece o Hemisfério Ocidental - que inclui a América Latina - como área de interesse estratégico prioritário para os EUA da qual devem ser afastadas potências de outros hemisférios.

A Margem Equatorial do Brasil, com reservas estimadas em 30 bilhões de barris de petróleo, segundo os militares brasileiros, tem tudo para encher os olhos dos EUA. Além disso, a região amazônica, que faz fronteira com a Venezuela e a Colômbia também detém grande potencial para exploração de minerais críticos.

Os chamados MCEs (Minerais Críticos e Estratégicos) são recursos essenciais para tecnologias de ponta, como veículos elétricos, energia eólica e digitalização, e para a área de Defesa. Minerais como lítio, terras raras, grafite e nióbio enfrentam riscos de escassez e dependência de poucos fornecedores e são cruciais para a transição energética global.

Perguntado na entrevista sobre suas intenções em relação à Colômbia, Trump disparou contra o presidente Gustavo Petro, com quem tem trocado hostilidades nos últimos meses: "Ele está produzindo cocaína e a estão enviando para os Estados Unidos, então, sim, ele tem que cuidar do próprio traseiro", disse o norte-americano em tom ameaçador. E acrescentou: "Espero que ele esteja ouvindo que será o próximo."

Petro certamente ouviu. E quem também ouviu e manifestou preocupação com relação à visão de Trump sobre a América Latina foi o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. Na reunião de on-line de sábado com ministros e assessores do Planalto, Lula pediu especial atenção na fronteira com a Venezuela. O presidente brasileiro também disse a assessores estar preocupado com a fala de Trump sobre a Colômbia e sobre Cuba. O presidente dos EUA declarou na entrevista: "Se eu morasse em Havana e estivesse no governo, eu estaria pelo menos preocupado."

Para Lula, Trump demonstra total desprezo por acordos multilaterais e pelas normais internacionais. Ou seja, tornou-se um perigo em potencial para todos os países, principalmente para aqueles que, como o Brasil, despertam o interesse econômico dos EUA. "É um perigo", tem dito Lula reservadamente.