Confesso que ao decidir sobre o tema que iria abordar por aqui, vieram muitos assuntos ao mesmo tempo. Enviei um WhatsApp para minha amada mãe, Magaly Cabral, com quem troco ideias e amo conversar e aprender. Magaly foi a revisora dos textos de meu pai a vida toda e eu, que não sou bobo, lhe submeto o meu modesto texto, antes de chegar a você.
Minha mãe sugeriu que o tema fosse a notícia da assinatura do Acordo Mercosul-União Europeia. Sem dúvida, uma grande notícia. Uma lição de perseverança política e diplomática por parte do Brasil, país mais importante entre os membros do Mercosul, e a Alemanha, país mais rico e desenvolvido da União Europeia.
O acordo vai permitir o fornecimento de máquinas, tecnologia e serviços que irão consequentemente modernizar a indústria, a agricultura e os serviços no Brasil. Ao mesmo tempo, amplia a capacidade de exportação dos nossos produtos aos europeus. O acordo envolve uma população de 750 milhões de europeus e sul americanos. Juntos, representamos um quarto (25%) do Produto Interno Bruto mundial.
Por outro lado, haverá um grande impulsionamento na troca de tecnologia voltada para a energia renovável, enquanto Donald Trump aposta no aumento da poluição do planeta com o petróleo e seus derivados como foco central do seu governo.
Pronto! Não resisti a falar desse sujeito, mas não tem como se omitir. O Pirata do Caribe quer governar o país do seu palacete cafona em Mar a Lago, Flórida. De lá, quer ser o imperador da América Latina. Uma região que ele considera o quintal dos Estados Unidos. A Flórida está coalhada de expatriados oriundos do nosso continente. Milhões de famílias já estão na terceira ou quarta geração de norte-americanos com raizes latino-americanas. Portanto, o exibido e auto-centrado Trump, que se esforça minuto a minuto do dia a ser o protagonista do teatro midiático do xadrez internacional, será um estorvo para o nosso continente, assim como tem sido em todos os continentes. Esse ser que completará apenas um ano à frente do seu segundo mandato, em 20 de janeiro, sonhou com Gaza como destino de grandes resorts e, de preferência, sem palestinos; como deseja tomar a Groenlândia dos dinamarqueses e fazê-la um lugar de exploração mineral e fortalecimento da base militar americana, já existente, em uma ameaça a mais à Rússia e China. A natureza e a paz que se danem. Além de sua polícia política, ICE, matar uma cidadã americana presente numa manifestação de protesto contra o fascismo da perseguição a imigrantes.
Mas não terminarei o texto com esse personagem desprezível. O Brasil se despede de um dos maiores formadores da cultura civilizacional popular brasileira nas últimas décadas do século passado e do atual: o genial Manoel Carlos. Um dos maiores novelistas da história da televisão brasileira. Seus personagens estão presentes no imaginário brasileiro.
Manoel Carlos, para além das suas Helenas, vilões e heróis, levou para suas novelas temas sensíveis como a violência contra a mulher, o tabu sobre o câncer e a vida de nossos idosos. Sobre esse tema, idoso, Manoel Carlos o inseriu na novela Mulheres Apaixonadas. Um casal de avós vivia junto com um casal de netos. Nessa relação o neto era muito gentil e compreensivo com seus avós, enquanto a neta era má e destratava seus avós o tempo todo. O ano da novela era 2003 e fazia um estrondoso sucesso, sobretudo esse núcleo avós/netos. O jornalista Luís Erlanger, então executivo da TV Globo, acompanhava no Senado a minha luta, junto com o meu querido amigo Paulo Paim, pela aprovação do projeto de lei que criava o Estatuto do Idoso. Combinamos a ida dos quatro atores ao Senado Federal para pedir aos senadores a inclusão em pauta do projeto, que tive a honra de relatar.
Pois bem, o Senado parou com a presença dos atores Oswaldo Loureiro, como o avô Leopoldo, Carmem Monegal como a avó Flora, Regianes Alves, como a neta e Leoanardo Miggiorin, como o neto Rodrigo.
E o Senado aprovou! No dia 3 de outubro de 2003, o Presidente Lula sancionou a lei do Estatuto do Idoso no Palácio do Planalto. Portanto, além de Paulo Paim e eu, Manoel Carlos tem sua digital no Estatuto do Idoso.
Pude conhecer Manoel Carlos pessoalmente anos depois, na casa da minha querida amiga Cidinha Campos, sua amiga, ex-mulher e mãe da sua filha Maria Carolina. Um jantar inesquecível. Além da comida deliciosa, a pièce de résistance foi conversar a noite inteira com Manoel Carlos. Um ser especial. Gentil, elegante e brilhante. E ainda falou com muito carinho de meu amado pai. Obrigado, Manoel Carlos!
*Jornalista. Instagram: @sergiocabral_filho