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Vorcaro Sociedade Nada Anônima

Vorcaro Sociedade Nada Anônima
Vorcaro comprou uma infinidade de pessoas, em vários níveis Crédito: Reprodução/Redes sociais

Há um meme circulando nas redes sociais que coloca Daniel Vorcaro, do Banco Master, naquela seção "Reclame Aqui", que há nas páginas do Procon. Então, ali, ele protesta que pagou R$ 130 milhões para o escritório de advocacia da mulher de um ministro do Supremo e nem assim conseguiu se livrar de ser preso. O impressionante é que há muito de verdade na piada. No depoimento que deu na semana passada para o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, Vorcaro quase fez o mesmo desabafo. Ali, ele disse que se "aproximou de pessoas poderosas" porque imaginava que assim iria se blindar. Gastou os tubos na mais inacreditável rede de proteção que já se viu na história da República. Mas ainda mais inacreditável é o fato de que, mesmo assim, Vorcaro não atingiu seu objetivo. O Banco Central decretou a intervenção do Master, e Daniel Vorcaro está preso.

 

De uísque a jatinho. De ministro a influencer

De uísque a jatinho. De ministro a influencer
O Clube do Macallan: mimos de todos os preços Crédito: Divulgação

A lista de pessoas que Daniel Vorcaro comprou não para de crescer. Vai de jornalistas e influencers até ministros do Supremo. Uma lista impressionante de pessoas forma essa rede de proteção, que varia não somente quanto ao grau de poder de cada um. Mas também com o preço. Alguns parecem ter topado se vender somente por uísques importados, charutos e ternos de alfaiate. Outros já tiveram, contratos milonários - para fazer filmes ou defesas - e leasings de jatinhos e helicópteros.

"É o ápice do patrimonialismo"

Para o analista e advogado Melillo Dinis, que atua nas Cortes superiores, o que Vorcaro conseguiu montar em torno de si é "o ápice do patrimonialismo" na história da República brasileira. "Um banqueiro que se tornou bilionário numa velocidade impressionante comprou uma quantidade exorbitante de autoridades e pessoas com influência que não entregaram a ele o que venderam". Vorcaro, então, reclama da sua situação, ainda que razão seja o que ele menos tenha. "O amigo e irmão de antes se tornou tóxico", avalia Melillo.

"Brigas de porcos com espírito de corpo"

"A sociedade anônima, secreta, que imaginavam construir agora se tornou nada anônima". O problema agora é saber como a República administrará tal estado de coisas. Para Melillo, o que se vê diante da profusão de informações que a cada dia vão surgindo é "uma briga de porcos com grande espírito de corpo". Ou seja, por um lado as tentativas de utilização política levam a vazamentos seletivos.

Enlameados

Por outro lado, os bombeiros se mexem para tentar apagar essa imensa fogueira que ficou acesa nos três poderes da República. "Quem vai ganhar e perder no final é impossível saber", considera o advogado e analista político. "Eu espero que vença a verdade. Mas o que já dá para antecipar é que todo mundo vai sair daí muito enlameado".

Renúncias

No caso do Supremo, que Melillo acompanha como advogado, ele não acredita em gestos extremos, como renúncias dos ministros. "Eles não têm esse perfil", considera. Assim, o mais provável é que levarão suas situações até as últimas consequências. Ou baixando conseguindo baixar a crise ou levando-a a um eventual processo de impeachment.

Fake News

Nessa escala de insanidade, Alexandre de Moraes incluiu na noite de quinta-feira (3) seu colega André Mendonça no interminável inquérito das fake News. Encaminhou ao presidente do Supremo, Edson Fachin, pedido de investigação contra Mendonça, a quem acusa de "improbidade administrativa e abuso de autoridade".

Sigilo

"Quando se poderia imaginar que um ministro do Supremo fosse quebrar o sigilo de uma fonte numa investigação?", questiona, por outro lado, Melillo Dinis. Há, portanto, uma série de situações excessivas, tomadas por alguns integrantes - não se pode dizer que sejam todos - de um seletíssimo grupo de apenas dez pessoas.

Limites

Não é imaginável onde essa escalada vai parar. Para Melillo, porém, parece cada vez mais inevitável que uma profunda reforma do Judiciário venha a ser a principal pauta do Congresso no ano que vem. Mesmo a tentativa de Edson Fachin de criar um código de ética, a essa altura, vira, para o analista, um "beiço de pulga".

Práticas

"O código de ética seria importante, mas será preciso impor mesmo limites a práticas que não são mais aceitáveis", diz Melillo. O "filhotismo" de escritórios de advogados de parentes próximos atuando na Suprema Corte. A mistura de interesses públicos e privados em cursos, palestras e outras atividades. A aceitação de favores como os de Vorcaro.