Por: POR RUDOLFO LAGO

CORREIO POLÍTICO | Sigilo de Lulinha: Shakespeare explica

Paramentares foram às vias de fato na comissão | Foto: Geraldo Magela/ Agência Senado

Há quem diga que existe sempre uma frase de William Shakespeare que resume o que quer que seja. No caso da lamentável pantomima na manhã de quinta-feira (26) na CPMI do INSS, o episódio que ali termina aos empurrões e socos e dá para ser resumido pelo bardo inglês tanto pela comédia quanto pela tragédia. Os nobres parlamentares se estapearam em torno da quebra de sigilo do filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Fábio Luís Lula da Silva. Mas desde janeiro o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça já tinha determinado a quebra do sigilo bancário e fiscal de Lulinha. Então, vai o resumo pelo título da famosa comédia de Shakespeare: "Muito Barulho por Nada".

 

"Som e fúria que nada significam"

Caso se queira explicar pela tragédia, há também a frase famosa de Macbeth. O que houve, então, foi um episódio de "som e fúria que nada significam". Diante disso, o que espanta é como pôde a bancada governista cair como pato na armadilha que foi montada pela oposição. Não apenas brigaram em torno algo que Mendonça já tinha definido como passaram a impressão de que estavam apavorados com o que poderia aparecer nas contas.

Um golpe parece mesmo ter havido

Carlos Viana contou os votos certos ou não? | Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Há uma grande probabilidade de fato de o presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG) ter aplicado um golpe. Contou a menos o número de parlamentares que se levantaram contra a quebra de sigilo. Se isso ficar comprovado, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), irá indeferir o resultado. Mas a oposição já terá conseguido o resultado político que queria. O desgaste já houve. Por que os governistas quiseram tanto - a ponto de sair no tapa - esconder as contas do filho do presidente?

Mais uma armadilha boba

Movimentos que jogam por terra as declarações de Lula de que seu filho, se tiver cometido alguma irregularidade, terá de pagar por ela. Ainda que no final nada apareça de fato nas contas de Lulinha, a oposição já conseguiu produzir imagens na CPMI que certamente irá explorar na campanha política até outubro. Sem contar com novas ações, Conselho de Ética, etc.

Amadora

Para o cientista político André Cesar, é esse tipo de condução amadora o que vai fazendo com que Lula perca a vantagem mais segura que tinha e comece a ver o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) mordendo seus calcanhares. "Lula é, sem dúvida, um animal político, mas não parece estar cercado de outros".

Carnaval

O episódio na CPMI se une ao que aconteceu no Carnaval com a homenagem da Acadêmicos de Niterói. Ações que parecem tomadas sem maior reflexão. Que fazem com que a eleição embole mais pelos erros cometidos por Lula e por seu entorno do que pelos eventuais acertos de Flávio.

Tração

"Fica aceso no Planalto um sinal mais que amarelo piscando forte", pondera o cientista político. "Lula não consegue ganhar tração e seu governo vai se enfraquecendo". Por um tempo, alguns até acharam que Lula poderia vencer a eleição no primeiro turno. André Cesar nunca imaginou que essa fosse uma hipótese.

Nunca

"Lula nunca ganhou no primeiro turno", lembra André. Na verdade, desde a implantação da reeleição, só Fernando Henrique Cardoso venceu no primeiro turno. E o aumento da polarização política nos últimos anos torna essa possibilidade ainda mais remota. Numa eleição apertadíssima, vence, então, quem erra menos.

Radicais

Onde podem residir as chances de Lula? No avanço das tendências mais radicais do bolsonarismo. Na possibilidade de limitação das alianças regionais a cada vez que algum aliado visita a Papudinha e sai de lá anunciando que o ex-presidente Jair Bolsonaro definiu nova chapa para o Senado.

Dois exemplos

O animal político Lula sabe disso. Na terça-feira (3), terá uma conversa com seu vice-presidente Geraldo Alckmin e com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sobre as eleições de São Paulo. Talvez almeje outro Shakespeare, o de A Tempestade, que diz que "somos feitos da mesma matéria dos sonhos".