Por: POR RUDOLFO LAGO

CORREIO POLÍTICO | Uso político de IA: hemorragia estancada com band-aid

Lula chega a Nova Dehli sem nada para apresentar | Foto: Ricardo Stuckert / PR

O presidente do Instituto Brasileiro para Regulamentação da Inteligência Artificial (IRIA), Marcelo Senise, lamenta profundamente que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegue para um encontro de fundamental importância como a Cúpula Internacional sobre o Impacto da IA, em Nova Dehli, na Índia, sem ter nada de concreto para apresentar. Por inação do governo, do Congresso, da Justiça e da sociedade como um todo, o Brasil mostrou-se incapaz de avançar na regulação da Inteligência Artificial em um ano eleitoral, mais uma vez marcado por uma polarização política violentíssima. A Justiça Eleitoral atuará, na opinião de Senise, como alguém que tenta "estancar uma hemorragia com um band-aid".

 

Democracia corre risco de sucumbir

Sem medo de parecer alarmista, Senise considera que "a democracia brasileira corre risco real de sucumbir". Caso não se consiga estabelecer um controle mínimo do uso dessas novas tecnologias, Senise vislumbra um cenário no qual o eleitor não será capaz de discernir o que é real do que é falso. O que pode gerar um cenário de perda absoluta da confiança, de descrédito total nas instituições e nos seus mecanismos de funcionamento.

Bem-vindo ao mundo dos neurobots

TSE terá ferramentas para controlar novas tecnologias? | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Em linha semelhante ao alerta feito antes aqui no Correio Político pelo também especialista em IA Mario Salimon, Senise chama a atenção para um possível erro de foco da Justiça eleitoral, ainda acostumada com os modelos tradicionais. O grande perigo não estará no uso massivo de novas tecnologias para produzir vídeos ou documentos que disseminem fake news. Mas, sim, na possibilidade que as novas ferramentas já têm hoje de conversar individualmente com as pessoas. São os "neurobots", como classifica Senise.

Conversas em nível individual

"As redes sociais estão infestadas de perfis falsos, robôs, com imensa capacidade de interação sem que se possa identificar se não ou não reais", diz Senise. "Eles até namoram nas redes sociais". Mas namorar é o que fazem de mais inofensivo. Os tais "neurobots" infestam-se nas redes e passam a interagir com as pessoas, acentuando o seu convencimento.

Sem preparo

"Então, cada um, a partir daí, vira disseminador de falsidades. Porque hoje é muito fácil criar conteúdos. Não serão exatamente as equipes de campanha que criarão os conteúdos com os quais nós teremos que nos preocupar na campanha eleitoral deste ano", considera Senise. Não estamos preparados para isso.

Não quis

No ano passado, Senise participou de um seminário internacional no Congresso no qual todos os alertas foram feitos. "O Congresso simplesmente não quis criar uma legislação para blindar a sociedade desses riscos", lamenta. "Ninguém pode dizer que não tenha sido alertado para uma nova situação".

Confusão

No fundo, é preciso colocar o dedo na ferida. Até que ponto a média do Congresso estará mesmo disposta a coibir a desinformação? Nas últimas eleições municipais, os casos de Pablo Marçal (PRTB) contra Guilherme Boulos (Psol) e Tábata Amaral (PSB) só agora foram julgados. Ficou ali estabelecido um tipo de padrão.

Blindagem

Para Senise, talvez ainda haja tempo de estabelecer alguma blindagem mais efetiva para as eleições majoritárias - de presidente, governador e senador. Mas é preciso agir rápido. Uma possibilidade: conseguir auditar os neurobots, esses perfis artificiais, conseguindo-os eliminar das redes. O problema: convencer as Big Techs.

Mundo

Talvez o que começa a acontecer no mundo, como a Cúpula na Índia, ou as medidas de controle agora discutidas no Reino Unido, consiga reduzir a resistência das empresas que controlam as ferramentas de redes sociais. Em grande parte, é a ação delas que impede a aprovação de mecanismos de maior controle.

Não é liberdade

Disseminar informação falsa, distorcer a realidade, não é liberdade de expressão. Esse tipo de pensamento não deveria prevalecer. Um mundo que não consiga discernir o que é real do que é falso é imprevisível e perigoso. "Caso isso evolua, o cenário que se enxerga é desolador", conclui Senise.