Por: POR RUDOLFO LAGO

CORREIO POLÍTICO | Consignados falsos: muito a explicar

O que havia de verdadeiro na carteira do BRB? | Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

A reportagem de Beatriz Matos, publicada na edição de segunda-feira (2) do Correio da Manhã começa a puxar um grave fio no novelo da crise que ficou conhecida como caso Master. Mas que é muito maior que somente as eventuais irregularidades cometidas pelo Banco Master. Impressiona o grau de envolvimento de autoridades em todos os níveis. Como foi possível que Augusto Lima forjasse empréstimos consignados de servidores públicos, como os professores da rede estadual da Bahia sem que ninguém percebesse? Onde estavam os mecanismos de controle: Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Conselho de Controle da Atividade Financeira (Coaf), Banco Central?

 

É a ponta do "risco sistêmico"

É a ponta daquilo que ainda no ano passado o cientista político André Cesar classificava como "risco sistêmico" quando o Tribunal de Contas da União (TCU) ameaçou desfazer a liquidação do Banco Master a partir da inspeção determinada pelo ministro Jhonatan de Jesus. O Banco Central preservou sua autoridade, mas o fato é que tudo o que aparece segue mostrando graves problemas nos atuais mecanismos de fiscalização.

Problemas começam desde a origem

Onde estava o Banco Central e o controle? | Foto: Rafa Neddermeyer/Ag..ncia Brasil

"O sistema está totalmente perdido", conclui André Cesar. Há coisas que precisam ser explicadas desde a origem. O CredCesta, de onde saíram os consignados falsos que engordaram a carteira vendida por R$ 12,4 bilhões ao Branco de Brasília (BRB), origina-se na Bahia como Empresa Brasileira de Alimentos (Ebal). Privatizada, é comprada por Augusto Lima. Que turbina o sistema de consignados e o leva para o Master quando se torna sócio de Daniel Vorcaro. A reportagem de Beatriz Matos já mostra que parte, pelo menos, deles era falsa.

Como fazer os empréstimos falsos?

A partir da história dos professores baianos e do PM do Distrito Federal, vê-se que foram registrados nas contas deles empréstimos que eles não fizeram. Os servidores não pegaram dinheiro nem pagavam parcelas por ele. Tudo só existia contabilmente. Os servidores nada sabiam. Mas quem, afinal, sabia? Quem tinha o controle sobre os seus cadastros? Quem os repassou?

Cadastros

Um servidor público que já foi diretor de Recursos Humanos explicou ao Correio Político que pode haver uma chance de a Secretaria de Educação da Bahia ou a PM do DF não estarem diretamente envolvida na falcatrua. Quando se faz convênio com uma instituição financeira, ela fica com acesso ao cadastro.

Informa depois

Segundo esse servidor, o banco fecha com o interessado o consignado e somente, então, quando o interessado fecha o pedido de empréstimo, é que o órgão ao qual ele é vinculado é informado para fazer o desconto da parcela a cada mês do seu salário. Se não havia o desconto no salário, é possível o desconhecimento.

Rede

De qualquer modo, há uma rede que não pode ser ignorada. Desde a compra da Ebal por Augusto Lima, passando pela indicação do ex-ministro do STF e da Justiça Ricardo Lewandowski para prestar serviços ao Master feita pelo senador Jaques Wagner (PT-BA). Nenhuma acusação nisso, mas algo a ser apurado.

Controle

De qualquer modo, há a partir daí uma sucessão de mecanismos de controle que falharam. Como mostra a reportagem de Beatriz, os servidores perceberam o esquema porque os registros dos empréstimos apareciam no Banco Central. Quando questionado, o Banco Central confirmou a existência do falso empréstimo.

E então?

Não houve, então, desconfiança? Antes da negociação com o BRB, o Master tentou ser comprado pela Caixa. Não conseguiu porque dirigentes se opuseram. Então, fechou com o BRB. É muito possível que o esquema dos consignados falsos só tenha sido descoberto porque a operação demorou mais tempo.

O que percebeu?

O que perceberam os diretores da Caixa que se opuseram à venda? O que não percebeu - ou não quis perceber - o BRB? Como falsos empréstimos podem ter virado falsos créditos que engordaram a carteira vendida ao BRB? O que havia de verdadeiro de fato nessa carteira? Qual é o tamanho desse esquema?