O que fica de uma obra depois que o canteiro é desmontado e o empreendimento entregue? A pergunta pode parecer simples, mas ajuda a ampliar a forma como enxergamos o impacto de um empreendimento. Uma construção pode transformar fisicamente uma região, mas seu legado pode ir muito além do que está dentro de seus limites. Pode estar em uma infraestrutura melhor, em espaços qualificados, em novos hábitos ou no fortalecimento de iniciativas criadas pela própria comunidade.
É nesse ponto que acredito que o setor imobiliário tem uma responsabilidade importante. Quando uma nova construção chega, ela passa a fazer parte de um espaço que já tem história, pessoas, características e necessidades próprias. Por isso, atuar de forma sustentável não significa apenas reduzir os impactos ambientais de uma obra, mas também compreender o entorno, estabelecer relações éticas e transparentes e identificar como podemos contribuir para cada lugar. Uma obra naturalmente interfere na rotina de quem vive ao redor, e ouvir os moradores e buscar formas de minimizar esses impactos deve ser parte desse processo. Mas essa relação pode ir além da mitigação e abrir espaço para contribuições que permaneçam.
O Vizinho do Bem, programa de relacionamento comunitário desenvolvido pela construtora MRV, parte justamente dessa lógica de proximidade. O programa cria canais de diálogo com as comunidades próximas às obras e permite compreender suas demandas e identificar oportunidades de atuação. Em 2025, esteve presente em 16 territórios de sete estados, beneficiou mais de 29 mil pessoas e atendeu 2.423 demandas. Mais do que números, esses resultados mostram a importância de estabelecer uma relação contínua com quem vive na vizinhança dos empreendimentos da construtora e de transformar essa escuta em ações que façam sentido para cada região.
Em Campinas, esse olhar esteve presente na criação de um novo Ecoponto na região do Campo Grande. A partir de um estudo sobre as características e necessidades locais, o programa identificou a importância de ampliar as alternativas para o descarte adequado de resíduos e reduzir o rejeito irregular em vias públicas, áreas verdes e corpos d'água. Com base nessa avaliação, foi implantado o espaço, que oferece aos moradores uma estrutura para a destinação correta de recicláveis e remuneração via Pix pelos materiais entregues. A expectativa é beneficiar cerca de 150 famílias e recuperar aproximadamente uma tonelada de resíduos por mês, unindo uma necessidade identificada na região a uma solução com benefícios ambientais e sociais.
Mas olhar para o entorno também significa reconhecer e fortalecer aquilo que já é construído pela própria população. Foi o que aconteceu com a horta comunitária "Cultivando no Florence", no Jardim Florence, vencedora de um concurso socioambiental promovido pelo Vizinho do Bem. Criado pelos moradores, o projeto transforma o cultivo da terra em uma ferramenta de união comunitária, segurança alimentar e educação ambiental. Para mim, esse tipo de ação mostra que contribuir para uma região também significa valorizar o protagonismo de quem conhece de perto seus desafios e potencialidades.
Esses exemplos ajudam a ampliar a própria ideia de legado. O impacto de um empreendimento não precisa estar restrito ao que é construído dentro de seus limites. Ele pode estar em uma estrutura que melhora a destinação de resíduos, em uma área qualificada, em uma iniciativa ambiental, no plantio de árvores nativas, na criação de um parque linear ou no fortalecimento de um projeto comunitário. Cada região tem suas particularidades e, por isso, as melhores soluções são aquelas que partem de uma compreensão real das necessidades locais. Nesse processo, empresas, comunidades e poder público têm papéis diferentes, mas podem contribuir para uma mesma construção.
No fim, uma obra tem começo, meio e fim. O impacto que ela pode gerar, porém, permanece por muito mais tempo. Uma edificação pode atravessar décadas, mas as melhorias realizadas em seu entorno também podem fazer parte da rotina de um bairro por gerações. É por isso que acredito que construir de forma sustentável significa também assumir responsabilidade pelo território que nos recebe. Quando uma obra considera o lugar onde está, dialoga com quem já vive ali e busca deixar contribuições que permanecem, ela ganha um significado que ultrapassa o próprio empreendimento. Esse, para mim, é o verdadeiro sentido de desenvolver além dos canteiros: construir hoje, mas também pensar no legado que ficará para amanhã.
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