Por: POR MARTHA IMENES

CORREIO ECONÔMICO | Comércio global incerto com saída dos EUA de organizações

Trump retirou os EUA de organizações ligadas à ONU | Foto: Casa Branca

A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de retirar o país de 66 organizações internacionais, entre elas 31 ligadas ao sistema das Nações Unidas (ONU), marca uma inflexão relevante na governança global e acende alertas no comércio internacional.

Ao classificá-las como contrárias aos interesses nacionais dos EUA, Washington sinaliza uma postura ainda mais unilateral, com potenciais impactos sobre regras comerciais, padrões regulatórios e a previsibilidade das relações econômicas globais. Ao atingir entidades centrais para temas como comércio, meio ambiente, desenvolvimento sustentável, direitos trabalhistas e cooperação técnica, a medida aprofunda o distanciamento dos EUA de fóruns multilaterais.

 

Indicações

A atuação dos Estados Unidos no bloqueio das indicações foi determinante para o estágio atual de enfraquecimento institucional. "Coincidentemente, as medidas de esvaziamento da OMC ocorreram sob o argumento de que os Estados Unidos não adotariam compromissos que contrariassem seus próprios interesses".

Paralisia

A OMC atravessa uma crise acentuada a partir da paralisia do Órgão de Apelação, decorrente da recusa dos EUA em indicar novos membros. Esse órgão era responsável por assegurar o cumprimento das decisões no âmbito do sistema de solução de controvérsias da OMC. Embora a crise da organização não se limite a esse fator.

Organizações

Entre as organizações afetadas estão a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), o Centro de Comércio Internacional (ITC) e a Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC).

No campo do comércio internacional, especialistas avaliam que o afastamento dos Estados Unidos tende a enfraquecer instâncias responsáveis por estabelecer regras, boas práticas e mecanismos de cooperação.

 

Efeitos diretos sobre o fluxo

Para Carol Monteiro, advogada especialista em comércio internacional e sócia do escritório Monteiro & Weiss Trade, a decisão tende a gerar efeitos diretos sobre o fluxo global de bens, serviços e investimentos. "Quando a maior economia do mundo se afasta de organizações que definem parâmetros técnicos, comerciais e regulatórios, o impacto imediato é o aumento da incerteza".

Sem cooperação

Segundo ela, a saída dos Estados Unidos de fóruns ligados ao comércio e ao desenvolvimento pode enfraquecer mecanismos de cooperação fundamentais para países emergentes e exportadores. Ela ressalta ainda que outros organismos internacionais já haviam sido alvo de medidas semelhantes e cita o esvaziamento da OMC.

Unctad

Além da OMC, instituições como a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad, na sigla em inglês) e o Centro de Comércio Internacional desempenham papel relevante na redução de assimetrias. "A saída dos EUA desses espaços tende a favorecer acordos nos quais países menores dispõem de menor poder de barganha".

Multilateralismo

Ao se afastar de organizações que oferecem suporte técnico e normativo ao comércio internacional, os Estados Unidos sinalizam menor disposição para compromissos multilaterais, o que pode dificultar avanços em temas como facilitação de comércio, comércio digital e convergência regulatória.

Fragmentação do comércio global

A retração americana nesses fóruns pode acelerar a fragmentação do sistema comercial global, com maior prevalência de acordos bilaterais e regionais em detrimento de mecanismos multilaterais baseados em regras comuns. Trata-se de um movimento que já vinha sendo observado ao longo dos anos, mas que, ao ser adotado de forma unilateral por uma potência com enorme peso no comércio mundial, tende a intensificar esse processo e pode, inclusive, comprometer a continuidade de certos organismos internacionais.

Emergentes

De acordo com o especialista, para países emergentes, o enfraquecimento do multilateralismo pode aprofundar assimetrias comerciais. Esses países costumam depender mais de organismos internacionais para apoio técnico, inserção em cadeias globais e redução de barreiras não tarifárias.