O caso do voo LATAM 3796 é mais grave do que se poderia pensar. O que seria do Brasil se houvesse uma fatalidade com o ministro do STF André Mendonça e, no mesmo voo, o ministro Luiz Fux? Um é relator do caso Master e do INSS e o outro, o único a ter feito contraponto na condenação de Jair Bolsonaro. Como o protocolo do STF permite que dois ministros, de uma Corte de 10 atualmente, possam compartilhar o mesmo voo?
Será que não aprendemos nada com o acidente do ministro Teori Zavascki?
Ninguém calcula o que passaria a ser o STF sem Mendonça e Fux fazendo contraponto? Os dois na mesma aeronave e ninguém cria um sistema que dê um alerta? Há protocolos que não permitem que determinadas autoridades voem juntas: presidente da República e vice; governador e vice, por exemplo.
Interessa a quem colocar em risco simultaneamente estas duas autoridades? O pior é que no caso do voo 3796 ele foi cancelado, já com a porta fechada e as autoridades a bordo por uma decisão do comandante, que ainda teve de ajudar do desembarque das duas autoridades porque o esquema externo do Supremo já havia sido desmobilizado.
Vítima fatal
Como não pensar em risco se o Caso Master já teve a sua primeira vítima fatal? Depois da morte misteriosa de Sicário, nas dependências da Polícia Federal em Belo Horizonte, além do problema com o avião com André Mendonça a bordo, a coluna apurou, de forma exclusiva, novamente, que o ministro ficou no aeroporto sem o esquema externo de segurança do STF, que havia sido desmobilizado com o fechamento da porta e a partida da aeronave. Ele foi socorrido pelo comandante, que o ajudou no desembarque especial, agindo novamente como seu anjo da guarda. O caso do Master passa a ter contornos que exigem mais atenção para a segurança de todos os envolvidos, principalmente para o ministro relator. Até então era só a notícia do Mendonça. A revelação da presença de Fux a bordo só elevou o grau de risco.
Até hoje o Brasil não compreendeu o acidente aéreo com o ministro Teori Zavascki, morto no auge da Lava Jato. O país ficou com uma pulga atrás da orelha.
Ninguém de fé duvida que o ministro André Mendonça tem proteção divina. Até a sua chegada ao STF é vista como uma interferência de Deus. Naquela quinta, 19, não foi só por achar a falha técnica antes da decolagem da aeronave, Airbus A319 do voo Latam 3796, que o piloto agiu como seu anjo da guarda. A Latam emitiu nota minimizando o acidente. Errou feio ao afirmar: "a decisão ocorreu antes do pushback da aeronave (manobra para início do taxiamento). Não houve falha mecânica nem decolagem abortada". Se houve incidente na etapa anterior com um pássaro, por que não avaliaram a aeronave antes de embarcar os passageiros? Algo muito estranho nesta tentativa de tapar o sol com peneira.
Afirma a LATAM depois da enorme repercussão da notícia: "A LATAM Airlines Brasil esclarece que o voo LA3796 (Brasília-Rio de Janeiro/Santos Dumont) de quinta-feira (19/03) foi cancelado de forma preventiva após a necessidade de inspeção técnica em decorrência de possíveis danos causados por bird strike (colisão com ave) em voo anterior da aeronave."
Cancelado de forma preventiva? O avião chegou e os passageiros embarcaram. Os dois ministros do STF chegaram pela pista e subiram as escadinhas, as viaturas, que foram de translado, foram liberadas e só depois cancelaram o voo?
O herói neste caso foi o piloto, que assumiu o voo em Brasília e resolveu por prudência não continuar a viagem. Se o voo fosse cancelado de forma preventiva, não teria ocorrido o embarque e os dois ministros do STF não teriam sido levados a bordo. Se o piloto não fosse iluminado, teria seguido viagem.
Naquela noite, o super evangélico Mendonça foi salvo duplamente pelo comandante e pelo Espírito Santo. Todos os ministros do STF possuem um esquema especial de embarque coordenado pela Polícia Legislativa. Em Brasília, eles são levados em uma viatura especial pela pista, mesmo que o avião esteja já no finger, e sobem por uma escadinha lateral. Geralmente são os últimos a embarcar e nunca são vistos pelos outros passageiros no terminal. Acessam direto o avião. Como a porta do Latam 3796 tinha sido fechada, a viatura do STF teve de deixar a pista e o esquema de segurança externo foi encerrado.
O avião ia decolar e missão cumprida para a equipe que colocou o ministro a bordo, ainda mais em um final de expediente de uma quinta chuvosa. Poucas pessoas souberem que tinham um passageiro ilustre a bordo. Ele embarcou pela escada lateral e estava nas primeiras fileiras. Naquele dia, ele foi a estrela do noticiário pela autorização da remoção do banqueiro Daniel Vorcaro para a Superintendência da Polícia Federal, iniciando o processo de negociação da delação premiada que vai abalar a República.
Com o voo cancelado por uma falha surpreendente, só identificada com a porta já fechada e iniciado o procedimento de check para decolagem, o ministro André Mendonça ficou entregue à própria sorte, sem o esquema de segurança externo do STF. Só um segurança que geralmente acompanha as autoridades estava a bordo. Quem o ajudou a deixar o avião com um mínimo de proteção foi a tripulação técnica, que merece um duplo aplauso, assim como o pessoal de terra da LATAM, por terem agido para proteger um dos personagens mais importantes da história atual do país.
A postagem no Instagram da coluna Magnavita, que noticiou em primeira mão o cancelamento do voo com Mendonça a bordo, teve mais de 2,3 milhões de visualizações e mais de 10 mil mensagens. Todas as pessoas preocupadas com a segurança de André Mendonça e pedindo uma maior atenção. Um verdadeiro clamor público em defesa do ministro, como se o incidente fosse um alerta divino. Dezenas de publicações reproduziram o fato e algumas copiando a notícia sem citar a fonte.
A preocupação popular é justificada. O ministro Teori Zavascki era o relator da Lava Jato, que estava no seu auge, em um momento tão delicado como agora ocorre com o caso Master. Ninguém imaginava que ele poderia morrer em um acidente aéreo não explicado.
No caso do Master, ele é agravado pela morte do Luiz Phillipi Mourão - Sicário nas dependências da Polícia Federal. Para especialistas em segurança, um profissional com aquele perfil e atuando em atividades violentas nunca atentaria contra a própria vida. Há muito o que ser explicado.
Outro caso polêmico são os vazamentos de informações íntimas do celular de Vorcaro. Muitos dados que nada tem relação com as atividades do banco Master e da investigação.
O próprio sorteio de André Mendonça como relator do caso Master contrariou interesses poderosos e obscuros. Com o avanço da delação e das investigações, o esquema de segurança deve ser reforçado. O ministro André Mendonça embarcou no dia 20, às seis da manhã, para cumprir uma agenda na sede da OAB-RJ. O ministro Luiz Fux, o único a fazer contraponto do julgamento de Bolsonaro e dos militares, contrariando os interesses da esquerda, foi no mesmo voo. Vale repetir a pergunta: o que seria do Brasil sem estes dois?
O STF precisa rever a política de compartilhamento de voos de seus ministros e criar maiores protocolos de segurança nas viagens aéreas. Esta talvez seja a maior lição deste incidente.